Este pêlo branco

Aqui, nesta montanha batem os primeiros matinais raios de sol e quando este desce e se apresenta o luar tem-se a sensação de que nada se apresentou diferente do que já foi, do que é ou que poderá vir a ser. Não espere nada, nem deslumbramento nem desilusão, não é essa a brancura que se pretende.
Anseie o nulo para que atinja o supremo início do tudo de novo.
Muito gosto,
Cabra Branca.

sábado, 31 de dezembro de 2011

Rapariga Stanby 2

Acreditou que ele estaria próximo, saiu do duche apressada, correu para o espelho do quarto enrolada na toalha turca com o estojo de maquilhagem na mão.
Atrasara-se nos pensamentos, entre o gel duche que lhe amaciava a pele, com que massajava e cobria as suas curvas bem delineadas, e a viagem que faria no corpo dele. Arrastou os pensamentos ao toque de si, o duche assim o pedia e avançou sem inocência ao prazer da sua vontade. Impressionou-se de si, como se sentia incendiada, aprisionou o desejo entre os dedos da sua mão. A água, essa, corria entre os seios afogando o fogo que lhe incendiava os pensamentos sobre ele, aquele que estaria lá fora a digladiar-se com o monstro do bafo gélido, enquanto ela serpenteava os dedos ao som da chuva aquecida em busca do gemido, do bafo quente contra ao vidro do duche, queimado as gotículas que escorriam para o gargalo rendidas ao impacto de tamanho cobiço.
Ao espelho já espetava as longas pestanas negras e passava o batom, enquanto enfiava sem esforço os sapatos cetim grená que davam o toque de cor à silhueta asa de corvo. O único brinco que usava era um lustre de sala real, cintilava segredos, ocultava passados esplendecentes e agora radiaria caprichos iluminados ao estranho. Os cabelos molhados escreviam linhas na horizontal declarando no vestido brilhante intenções de ser despida e devorada... O som de um motor cansado anunciou chegada, descontrolada e altamente confeccionada não tivera tempo a mais retoques especiais. Tudo o que estava a mais, naquele desarrumo caos, passou a toque de pontapé, limpando as tábuas corridas daquele palheiro, para debaixo da cama virgem, ocultaram-se, refugiaram-se para dar lugar ao que seria palco da peça a estrear.
(Cont.)

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Rapariga Standby

A voz brasileira da miúda do GPS indicava-lhe o caminho, parecia que ela estava mais à deriva do que ele.

Entardecia, subia a montanha com o carro em esforço e já no cume apresentou-se-lhe o monstro da montanha que respirava certamente de boca aberta, nublando o caminho, desenhando uma névoa com bico de aparo largo no pára-brisas do seu veiculo, um pouco assustador, mas tão excitante de a saber mais próximo...

Ansiava chegar, pela viagem acompanhava-lhe a ideia de se seria uma foda divina, esse pensamento aquecia-lhe a alma e acalmava-lhe a pele eriçada, influenciada pelo manómetro do carro que declarava menos 2 graus.

Apesar da pressa do chegar, via-se obrigado a abrandar, o nevoeiro acentuava-se, um manto imaculado quase opaco ocultava-lhe o caminho. Imaginava-a assim, branca leitosa, suavemente cheirosa, apetecível adocicada. Os seus cabelos seriam finos e suaves, leves de cor de avelã e os seus olhos, esses, imaginava-os azeitonas verdes caídos da árvore por esforço de uma vara. O pensamento rolava-lhe, mas as rodas, essas travaram, não conseguia mais avançar.

Era o inicio do anoitecer, parou onde estava, saiu do carro e enrolou um cigarro apressado pelas mãos que se lhe engessavam pelo frio, acendeu-o e deu um travo profundo, quase o fumou num segundo e soprou, um sopro infindo, maior que a do mostro da montanha. E contemplou, admirou o fumo do cigarro a rodopiar na aragem gélida enlaçando-se ao nevoeiro cerrado, enroscaram-se e beijaram-se, enamoraram-se, deram as mãos e seguiram caminho, soprados pelo vento suave. Sorriu, e viu-se ali, parado, sem enxergar vislumbre, acompanhado pela voz da brasileira que ecoava dentro do carro, “próxima saída à direita”, “próxima saída à...”

Entrou no carro, estava acolhedor, sentiu a sola dos pés a aquecerem lentamente e confiante acreditou que seria capaz com a ajuda da falante, “saia na saída”, virou às cegas, dentro do peito um palpitar agitou-se, um nervosismo hilariante invadira a sua impaciência, esfregava os olhos em jeito de quem cegar vendo nada. Avançou, guiado fortemente pela vontade, pelo desejo de a ter em braços... e o coração era assaltado, numa dúvida vertiginosa, seria apetitosa?

(Cont.)

domingo, 25 de dezembro de 2011

Quem Se Perdeu?

Não se percam por favor, vamos a caminho da noite de final de ano...



...e os meus braços chegam para o abraço do tempo.

sábado, 24 de dezembro de 2011

Alugada!

Cabra, quero alugar-te.
Vou-te fazer uma proposta que não podes recusar.
No entanto peço que revejas o teu anuncio, em vez de "tiro foto", quero "tiramos fotos juntos".
P.S.: Não dispenso que me digas "Amo-te"
VICIADO

Viciado, como me fazes feliz, dada a crise estou mesmo necessitada!!! Aceito! e até como alento te digo duas vezes AMO-TE!
Manda a proposta para o meu mail!
Feliz Natal e lá nos encontramos... no reivellon???!!!
Cabra Branca

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Tira o laço

pronto, depois de bater perna pelas ruas da baixa pombalina encontrei a prenda!!!
Feliz N.a.tal!!!


quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

deixa que o beijo dure

Acordo com esta música...

Cantarolei-a durante o dia,

E voltou a mim ao pestanejar em direção ao sono,

E por que razão?

Calma...

não somos mais que uma gota de luz

tudo está em calma

deixa que o tempo cure

deixa que a alma tenha a mesma idade que a idade do céu...

Deixa que o tempo cure e o beijo perdure

Calma...

É com esta dimensão de infinito que adormeço em gracejo de Deus.

Cyclone

...estou aqui, sempre estive, aqui escrevo à espera que me escutes como a uma voz falada. Palavra, palavras, para quê? Tanta palavra, tantas vezes, tantos loopings avançados. Estou aqui, sempre estive, escrevo à espera de que não me falte palavra. Choro e paro, choro por mim, por ti e por todos os que se julgam no dom delas. Palavra? Palavras falhadas, as mais de mil pronunciadas, foram zeros segredados, secretos amaldiçoados, levianas essas tantas vezes faladas. Conta-me sem elas, balança o teu corpo em gestos pré-anunciados, desenha lábios num infinito muro. Palavras? Manifesto contra elas, essas ingratas choronas, palavras babadas, palavras amadas, sim, so often... estou aqui, sempre estive, aqui estou, aqui fico, aqui escrevo as ditas palavras julgadas caber, tantas vezes coladas, tantas vezes elevadas. Palavras? Tão aborrecidas, tão amargamente apodrecidas.

sábado, 10 de dezembro de 2011

Às tantas

E és “só” uma em tantas.
Em tantas que vi ou no meio de tantas, pedaços de ti vi. Passas por mim, trespassas-me, assaltas-me, atropelas-me e viras-me do avesso, desorganizas, desorientas-me, tiras-me o tapete e olho... Vejo tantas, podes ser tantas, em cada uma vislumbro retalhos de ti. Vira-te! Não, não és tu! Tu também não! Céus... mas onde estão os olhos que me matam, que me fulminam e fazem voar?
Viajo no rubor da tua face, fazes-me provar e sugar os lábios avolumados que me soltam arrepios, que me libertam desta indiferença, deste marasmo. Mostra-te-me!
Preciso-te! Não te quero em tantas, tu que és aquela no meio de tantas! És minha! És aquela... assume-te e deixa-te cair nos meus braços! Vira-te, anda, agarra-me! Não és assim tantas, és enfim só uma.
E hoje é noite de lua cheia.


quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Uma estrela num barco de pedra

E com esta pequena história fui votada para a final do primeiro concurso LGBT, lançado pelo dedicadíssimo Sad eyes do blog good friends are hard to find.AQUI

Espero que gostem

Atenciosamente,

Bianca

Uma estrela num barco de pedra

A mãe gritara, chamava-a ecoando uma voz branda, vinda do piso inferior... Ivoneeeeee, vem à porta, anda, é a tua coleguinha da escola, ela chegou!
Criança remexida, Ivone intempestiva e inesperada saltou da cama, correu para as escadas. O rabo pelo corrimão deslizou... mas em tamanha excitação deu embate ao desequilíbrio, ninguém calcularia, a frio no chão caía. Ivone paralisaria.
Rita à chegada fora assaltada, a sua amiga ali no chão estava, as lágrimas já ninguém as segurava e a sirena da ambulância assim chegava.
Vinte anos passaram, Ivone sentada ao lado da janela, ali estava, numa casa rasa que lhe servia, não tempestades, ali não as havia e tocadelas de campainha raramente acontecia. Ivone de olhar meigo e perdido, fitava as poças de água de lá de fora, pensava como uma simples pinga de choro as agitaria, mas lágrimas já não escorriam e um pé sim, esse as sacudiria. A campainha tocou, a cadeira rolou até à porta que destrancou. Era a Rita, ela chegou. Falar não falou, sorriu, como sempre um sorriso terno que atrás de si a porta fechou, a colo Ivone içou, pelo corredor a levou e já no quarto a deitou. Rita desnudou-a com meiguice, tocou, acariciou e beijou, despiu Ivone com jeitos de anseio e em desejos elevou. Ivone, os olhos fechou e um longo e afável prazer inspirou.

domingo, 4 de dezembro de 2011

Onde moras?

Onde moras?
Na tua cabeça. E tu onde moras?
Eu moro no teu pensamento.
E porque não vens até à sala?
Para? Para me sentar no teu longo sofá ou deitar no infinito soalho dessa tua sala?
Não ouves a música tocar? chiuuuu... Não te apetece dançar?
Hoje não danço. Hoje não sei que dia é, não sei se o nevoeiro levanta ou o sol se esconde na fumaça da tua confusão. Esta cabeça onde dizes morar levita com este nevoeiro. Está nevoeiro?
Não me apetece sair daqui. Não quero pedir-te que saias de mim, não quero ir lá fora, daqui não vejo nevoeiro, nem te sinto a levitar, sinto-te na pele, sinto-te o respirar como se estivesses mesmo aqui atrás de mim... encostada a mim. Está nevoeiro?
Está nevoeiro! Não vês? Deita, deita-te aqui, enrosca, puxa os lençóis, anda, vem, vem e fica! Porque tens de oferecer resistência é só um nevoeiro! Luta, contra essa incógnita cabrona! Vais deixar que ela te vença? Certamente há guerras com pretensões mais nobres! Dá-lhe, dá-lhe!!! Dá-me!

Plateau


Uma deusa no topo de uma montanha
estava queimando como uma chama de prata
o topo da beleza no amor
e Vénus era seu nome

Ela teve isso...
sim, baby, ela teve isso
Bem, eu sou sua Vénus, eu estou no seu fogo
No seu desejo

Sua arma eram seus olhos de cristal
Fazendo todo homem louco
Negra como uma noite escura
Ela teve o que ninguém mais teve

Ela teve isso...
sim, baby, ela teve isso
Bem, eu sou sua Vénus, eu estou no seu fogo
No seu desejo


E assim me fartei de dançar no Plateau, há tanto que não dançava tão bem!!! Coisas...

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

fá-la Dançar

Recorda-te ao entardecer, quando galgavas lances de escada, degrau atrás de degrau, uma subida perpetua, sonhando naquele abraço apertado, dançando em beijos trocados, tocando ao som de afagos, perdias-te nela.

Falavas-lhe calado no balanço dos corpos, enrolavas os dedos em demorados cabelos, desnorteavas-te no embalo nela e ela achava-se em ti, quando lhe sussurravas a beleza, veneravas-lhe o corpo e a beijavas mais de mil vezes. Dançavas e ainda danças, dançavas e dançarás sempre naquele escurecer. Dançavas a dança do querer, desaparecias no tempo, deixavas outras portas de afecto e alcançavas desejos ansiados tatuados nos teus dedos. Dançavam e dançaram agarrados na músicas do que é.

Quem soube não foi só quem subia e quem estava na subida, sabe o chão encerado, onde as solas gravaram LPs de paixão.

Ela dança, dança agora na tua cabeça. Tu danças as danças da mudanças. Dança, dançou o que o ensejo elevou. E a dança ficou. A dança que te recorda no amanhecer.

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Assusta!?

“Aos 20 a mulher tem espinhas, aos 40 tem pintas, encantadoras trilhas de pintas, que só sabem mesmo onde terminam, uns poucos e sortudos escolhidos. Sim, aos 20 a mulher é escolhida, aos 40 é ela quem escolhe. (...)Também aprende a se perfumar na dose certa, com a fragrância exacta. A mulher aos 40, mais do que aos 20, cheira bem, dá gosto de olhar, captura os sentidos, provoca fome.

Aos 40, ela é mais natural, sábia e serena. Menos ansiosa, menos estabanada. Até seus dentes parecem mais claros. Seus lábios, mais reluzentes. Sua saliva, mais potável.. e o brilho da pele não é o da oleosidade dos 20 anos, mas pura luminosidade. Aos 20 ela rói unhas, aos 40 constrói para si mãos perfeitas. (...)

O que mais assusta é que nenhuma mulher lhe vai perguntar o que está a sonhar, pois são só sonhos e isso não a preocupa...” Filipe Veríssimo


O sonho comanda a vida, escreveu Fernando Pessoa, um eterno adolescente com uma personalidade original, incondicional romântico que criou e recriou um mundo próprio, num espírito rico e paradoxal que não se podia resumir a uma só personalidade.

Aos 20 as mulheres, ao lado deles, querem sonhar com eles, crescer com eles, aventurarem-se com eles, descobrir mundos com eles. Aos 30, temem pelos sonhos deles, duvidam dos compromissos deles, detestam as certezas concretas deles, abominam a julgada maturidade deles. Aos 35, confirmam a veracidade dos sonhos deles, embasbacam com a força de vontade eles, empalidecem com as acções deles, fervem roxas de raiva das afirmações deles. Aos 40, não ligam e muito menos questionam os sonhos deles, lá querem saber se aos domingos pela fresca andam de bicicleta cumprindo um estilo de vida saudável, desde que na noite de Sábado lhes dêem de jantar fora de portas e as comam dentro de portas! Se vão gastar um balúrdio de guito num bilhete pró futebol, se as encantarem no dia seguinte com a ida ao teatro, se vão para uma noitada de copos ou jogar poker a pagantes, se lhes ofertarem um fim-de-semana numa escapadinha cá dentro, ou lá fora, é preciso é escapar! Mas aos 40, aos 40 quem é a mulher que quer pagar o preço de sonhar o sonho deles aos 50?

Meu amigo Filipe, obrigada por tão acarinhado post.

domingo, 20 de novembro de 2011

Olh(ando)

Não devemos desculpas um ao outro, nem ontem, nem hoje, nem amanhã, a desculpa é uma palavra improdutiva em certas situações, esta é uma delas. Não temos de pedir desculpas pela paixão a alguém. Paixão, essa palavra ingrata, frívola até pelo tempo que nos oferece.
A vida, com ela não devemos ficar contentes, alegres, tristes ou mesmo fodidos, a vida é o veiculo onde transportamos o nosso ser numa aprendizagem a tudo, todas as folhas deste livro são para ser folheadas, lidas e acrescentadas. Nós? Nós somos uma página de um qualquer capítulo que nos fascinou ler, quando quisermos reler, já todas as letras que preenchiam frases mágicas, sensuais e inebriantes de luxúria, recolheram-se, evaporaram a cada passagem anterior dos nossos olhos. Ficou na memória, ficou na memória...
Os segundos, cada segundo vivido foi intensamente sublime, cada minuto esperado será dolorosamente detestável. Um adeus um até qualquer dia, até logo ou mesmo um até já, não tem peso temporal, tem sim emocional, infecunda esperança em aberto, estéril saudação, enferma saudade de uma felicidade infrutuosa.
Esvaziar a mente como a uma garrafa de vinho aquecida, pensar em asneiras, fustigar ideias, chatear as recordações do pouco tanto que foi, dificultar o que um dia será. Decidir sem hesitar, falar alto para se ouvir, chatear quem finge nos ouvir.
O tempo? embebeda-se em desculpas das horas, dos minutos, no segredo dos segundos.
Respeito. Respeito-te.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Fico

É um adeus de chegada, uma surpresa não esperada, uma invasão não planeada, é a música que não se ouve, o rascunho que não se lê, um envelope fechado de porquês. E tu quem és? Quem és tu, e tu e mais tu? Quem são vocês afinal? Receio porque me quererem saber. Na rua não me olham nem muito menos me falam, não me dizem à luz do dia um olá, um adeus, nem me dão beijos quentes ou arrefecidos, nem encharcados ou molhados, nem húmidos ou desagasalhados! Quem és tu aqui, nesta caixa apertada? Quem és tu, e tu e mais tu? Quem são vocês afinal? Eu? Eu sou o vulgo do mundo de um outro lado, o desejo andado o abraço agoniado. Sou a mão de outra mão, sou a mãe de futura mãe, amiga de quem, parasita de alguém, amor que tem, sou eu e sou tu. Sou o rosto de uma só face, um corpo que fala só. Uma voz sussurrada num ouvido mouco. Sou suspiro ansiado, gole apertado, choro entranhado. Sou lágrima denunciada quando ao longe me dizes, és tu afinal! Eu? Eu sou anseio teu e desejo meu, sou um Adeus que fica, chegada desespera num abraço apertado, e na despedida sinto sofrida o preço que não me leves.
Para onde vais, leva-me... leva-me ao de leve, ao colo, e não me largues, não abras as tuas mãos cegas, não me percas nas linhas deste tempo. E os olhos, os teus olhos perguntaram afinal, quem és tu, e tu e mais tu? Quem são vocês que andam nesta caixa apertada?!

domingo, 13 de novembro de 2011

em ti and I

quatro da manhã, hoje era diferente, era já Sábado, um Sábado. No sobressalto da perca do cartão do parque de estacionamento do Lux , vinha agora com licença a passar todos os semáforos da Avenida de Berna que se apresentavam verdes. O vazio da noite e a humidade na estrada espelhava-a tornando-a no caminho do sentido, guiava-me na incógnita de ti, conduzia sozinha ao encontro do que seria.
E dispo, tiro cada peça de roupa fedenta a tabaco. Nua, a água corre quente pelos meus cabelos encontrando um corpo bebido. Abraças-me e sinto-te no meu pensamento, as gotas dão-me beijos quentes, beijo-te beijando a água que escorrega pela face e descobre os meus lábios. Fecho os olhos e olho-te, céus e como me olhas... estavas online. O que te faria? Queria-te debaixo desta chuva aquecida, segredar-te-ia o imprevisto do impossível , e tu conseguirias transpô-lo por mim, roçando na demência do descuido dos teus lábios nos meus, e percorrerias terras de mim, altearias conquistas de guerra em toda a minha extensão, e beijarias o beijo da água que já vai em cascata entre os meus seios, encontrando a foz do aceso de mim. E faço-me diva da água de cano, fantasio na minha igual demência, e é tão bom por parecer verdade.
Deito-me, recebo-te, envolvo-me nos teus braços fortes, sinto-me segura na ponta da corda. Adormeço, acordo, sentada na tua corda segura, aninhada nela, tacteio a teia da tua pele, o corpo que te assiste como a Júpiter e fito-te de pujança, suspiro e respiro, suspiro aconchego... Não quero acordar...
E eu acredito em ti e em mim porque somos o sonho, a fantasia, o desejo devaneio, o nosso desatino desassossego.

sábado, 12 de novembro de 2011

Candidatos a Martinhos


Neste dia de São Martinho ia bem beber um copinho? Alguém quer ir? Candidatos esperam-se.


E antes de publicar este "desafio", o telefone tocou. - estou a dois minutos de tua casa, tens planos para hoje? Sei que não, vou ter contigo!, e nem mais um minuto, em menos que isso a campainha tocou.
- Tão lindo que és! Só mesmo tu! Que queres?
- Vá vai tomar banho vamos sair daqui!
...e assim foi, são quatro e meia da manhã e liguei o computador e quem eu desejava ainda estava online, vai daí que vos conto a noite amanhã, quer dizer, hoje, mas mais logo.

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Beijo dorme-nte

Mas porque não páras? Porque não te assumes? Porque não deixas cair a máscara? Diz-me o que me queres! Diz o que realmente queres! Não apareças e desapareças... Jogas comigo... Seguras-me mas não me agarras... sussurras-me mas não me beijas... chegas-te mas não te encostas... Tocas-me mas não me prendes... Prendes-me mas não me enlaças... Que desatino!
Anda, sai da minha cama! Deixa-me dormir que eu não te quero! Sai!
Que estás a fazer? Volta! Não me aqueças e arrefeças. Segura-me mas não me agarres... chega-te a mim mas não te encostes... Toca-me mas não me prendas... Prende-me mas não te enlaces... Tu não podes... Não deves... Eu não quero! Apetece-me mas não posso... posso mas não devo...

Envolve-me, segura-me, aperta-me, encaixa-te, oferece-me os teus lábios, toca-me, estimula-me, provoca-me... segue-me no sonho que eu ilumino o caminho...

Deixa(s)-me dormir!?

domingo, 6 de novembro de 2011

VOU MANdar!

É oficial, vou concorrer.
PIXEL será o CONCURSO DE PEQUENAS HISTÓRIAS LGBT, que terá agora a sua primeira edição. O concurso vai decorrer entre 1 e 20 de Novembro de 2011, fica subordinado ao tema “Good friends are hard to find” e as regras são as constantes do pequeno regulamento que se segue.
Apresento o cartaz de divulgação e desde já fica feito o convite para participarem, acompanharem e divulgarem o concurso.

AQUI ESTÃO AS REGRAS

sábado, 5 de novembro de 2011

Hop on Hope

Amantes duma outra vida, a ti, ontem vi, encontrei-te entre mil braços de mais de mil dúzias de gente. Amanhã, ao teu lado, confundir-me-ei entre essa gente, naquela rua onde nos conhecemos desde sempre. Anda, anda para aqui, ao meu lado ao teu lado, na rua onde moro chamada sonho que te senti. A outro vi tua figura que ainda desconheci.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Once Upon A Time

Ecoava trovoada no céu escuro, Antónia escrevia, declarava carácter, em texto confessava. O marido acabava de adormecer e as filhas há horas repousavam. Ali, sentada na marquise adaptada, olhava para a janela do seu portátil e escrevia em confidência de suas culpas. Questionava entre parágrafos de que seria recheada, se de areia molhada ou de palha enxuta? Arrependimento? Não sei se Antónia sentia, ela própria admitia em desengorduradas frases declarava, sem restrições a pormenor, se dispunha a sua aura infeccionada. Estaria enferma? perguntava, nunca para ali se alvitrara. Mas naquele dia tinha sido ultrapassada, como ela odiava! E em palavras corroídas, execrava as outras, todas iguais a ela, todas em vidas falseadas, enganavam seus desventurados maridos que falhavam em tropeços de exactidão. Infelizes bobos esposos, homens de carreira, com sapiência certeira na economia global, mas zero na emocional. Infelizes bobos cônjuges, homens de carteira... Antónia redigia, com sarcástica poesia, como as outras putas seriam. Belas amantes, roliças extravagantes, borradas nos maquilhantes, mas ela, ela a todas comia, a todas julgava que estornaria na sua suposta supremacia.
Antónia por cima do teclado adormecia a sua sobrancelha no Delete tocaria.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

chato

- Chato..., Lucília, estou aqui a pensar...

- Em que pensas?

- Então, já batemos a tanta porta...

- É só doces, não é ? Então é bem bom, ou menos mal... Tu querias travessuras, certo?!

- Não.

- Não !?

- Não ligo...

- ...?

- Queria mesmo era sentir o sabor desta bola de neve que estou a chupar, já não têm o mesmo gosto de quando éramos miúdas! Que aborrecido...

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Dia dos vivos

A céu aberto, irrelevante saber se enublado, chuvoso ou solarengo, eles ali estavam. Muitos eram, encontravam-se em fila, uma fileira ansiosa como quem espera por um qualquer pão seco, rijo e bolorento de tempos difíceis. Tesos, cabeças baixas, rostos empalidecidos e pouco sabedores, não querendo conhecer quem estava para trás de si, e os da frente também pouco tinham de importância. Sem vida alguma, sem brilho de alma, marchavam lentos, sempre que a fiada avançava permitiam a ida de um pé atrás do outro. Não atingiam porque ali estavam, nem era de valor perguntar. Eles eram os vivos.
Os outros estavam deitados, lá no fundo, nas arrecadações do confim do mundo. Riam de contentes, bem nutridos por larvas biológicas de cultura fértil e estaladiços vermes, muito crocantes comparáveis a pipoca. Riam a ver o filme dos vivos.
- Coitados dos vivos! Dizia o Alexandre mangando dos vivos.
- Sim, sim - ria um outro - e nós é que somos os mortos!
- Oh cadáver Alexandre, respeito pelos vivos se faça o favor!
- Mas oh Sou Doutoree Cadáverrr pá, eu respeito os gajos! Mas esta coisa da recessão económica está a dar cabo deles pá! Estão vivos a ansiar estarem mortos ou como a outra dizia, estar vivo é o contrario de se estar morto, esta grande verdade já não faz sentido oh sou Dona Lili! Ahahahah
- Mas afinal que tem você a ver com a desgraça dos vivos, a si não o deixa mais morto do que está!?
- Olhe Sou Doutoree, por acaso até deixa pá! É que qualquer dia, um gajo aqui, cai mesmo no esquecimento! Então se a malta lá de cima não tem dinheiro nem pá comida pá, como vão me mudar as flores do meu telhado???

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Insaciavel

Isilda Conceição Bernardo da vila Ruas, filha de gente de bem, no jardim do solar de sua Avó, Bernardete Assunção Celeste Casais da Vila, fumava mais um de muitos cigarros roubados de seu Avô, José da Vila, estando este sempre demolhado nos melhores blended Whiskys do mundo, pouco dava falta numérica na prezada caixa de prata repousada sobre a secretaria Luís XV da particular biblioteca.
Gloria, a filha do motorista, fã incondicional de Isildinha, fazia tudo o que a sua musa ordenava.
- Glória, vá, fume este cigarrinho a meias! 
- Mas, mas..., Isildinha você sabe que eu sou asmática! 
- GLÓRIA FUME!!! 
E sem mais desculpas Gloria fumava e cantava se solicitada, ainda que cantasse que nem uma coruja-barraqueira, dançava que nem uma gorda bêbeda e fazia de dama, dama de companhia a Isildinha mimada.
Certo dia de inverno frio e chuvoso as raparigas não podiam desbravar relva no jardim, assim recolheram-se ao quarto, ocultamente debaixo da alta cama de Isildinha. O fundo da cama estava forrado a desenhos, bocados de papel de embrulho, pastilhas elásticas mastigadas, recortes de jornais e revistas da moda, desejos escritos de "quando for mais velha", enfim, uma panóplia de colagens estonteantes. Ali estavam elas, liam um drama erótico, O último tango em Paris.
– Glória, gosto do imaginário de Bertolucci, esta coisa da vontade sexual por mulheres desconhecidas...
- Sim Isildinha, realmente é empolgante... (Glória inquieta no que dali viria)
- Podíamos ensaiar! Isilda empolgada, excitada com cenas que visionava no seu luxuoso imaginário.
- Ensaiar?!? Retorquiu Glória
- Aí Glória você é uma lesma pensante! Então você é a desconhecida e eu vou engata-la de forma a termos relações sexuais!
Glória empalidecera.
– Mas Isildinha acabo morta?
Isilda fechou o livro, enfadada responde à filha do motorista,
– Não sua pateta! Bem sabe que não gosto de finais trágicos! DISPA-SE! ACÇÃO! 
Glória sem mais cogitações despiu-se apressada e fitou a imagem recortada de Bo Derek, nua em cima do cavalo, colada mesmo diante a seus olhos. Isildinha acompanhou no desnudar desvendando mais uma langerie do tempo em que sua avó tinha umas 20 primaveras.
Como era mais magra que Glória, por determinação montou-se no corpo voluptuoso de Glória que ficara mumificado de olhos esbugalhados na Bo Derek em esplendor domando o macho. Isildinha ensandecida no deleito daquele roliço corpo, remexia-se como louca. O suor nascia em pequenas gotículas no rosto de Glória que não despregava olho da Bo, e aquele ruçanço tornou-se magno, profano de bom sabor.
Glória desejou depois, mais de mil dias  chuvosos e frios.

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

devoluta carta

Ó ser que habita em lugar, aldeia, vila ou cidade, num país certamente. Ó apetecível desconhecido, imaginação minha de toque sereno. Endereço-te correspondência, talvez vaga, incerta ou desprovida, sem dúvida minha, inquestionável e apaixonante. Porém não te conheço hábitos, nem costumes nem ideologias, muito menos sentimentos, mas rogo, imploro que sejas distinto e admirável. Que sejas curioso, ambicioso e versátil. Previsível, nunca! Que sejas pois tu, Solitário, que me acompanha, e eu com que tua admiração me ria e me distraia. E se fores mais do que espero, que importa, que convém ao meu querer supérfluo, pois anseio desejos infelizes no registo do que julgo desejar. E nada mutará tua essência porque Tu existes, Tu és espelho sem vislumbre reflexo, onde o meu rosto brilha na ignorância da tua afigurada aparência.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

lost

todos os dias à mesma hora, à hora do lanche, com as mãos sobre o teclado, dou-me conta que o meu corpo corresponde a um sinal já automatizado, fazendo com que o meu pescoço rode na direcção da janela e vislumbre a imagem de um ritual banal, que não despertaria interesse a ninguém. Mas a mim sim! À porta daquela oficina lancha-se uma sande de qualquer coisa acompanhada por uma Sagre mini! Da minha janela … observo que tem cara de miúdo, olhinhos pequenos, sorriso inocente e sincero, cabelo raso a desenhar o contorno da cabeleira que a separa da testa, já com ligeiras rugas, corpinho seco e a pele morena. E eu, sempre me lembro de o ver, desde que as minhas hormonas chamaram por mim. Esse homem que vos falo está ali, no mesmo sítio de sempre, à mesma hora de sempre a comer a sua sande de qualquer coisa com a ajuda da sua mini, todos os santos dias, menos ao fim-de-semana, e hoje é sábado, não está lá, mas as minhas mãos sobre o teclado param, o meu pescoço vira, endireito as costas, regalo os olhos lá para fora, e viso o portão cinzento da oficina que ostenta o sinal de proibição a parar ou estacionar. Ele hoje não está encostado à ombreira de pedra que contorna o portão. É mecânico da oficina, vivo num andar com vista para a garagem, e ele já abriu o motor do meu carro! Terá a minha idade e uma voz sensual, mas depois à hora do costume, vem comer a sande de sempre e beber a mini do costume à porta da garagem, à porta do trabalho… a anilha no dedo, do tamanho de uma nave, brilha quando levada à boca a mini, penso… quem aguenta vê-lo a comer sandes e a beber minis? Comer sandes em segundos, e em menos que isso tomado o rosto bonito por uma forma de balão, não mastiga, engole com a ajuda da mini! Agora ri, graceja com o colega do ramo, e com a língua lava os dentes da boca toda… e assim se perde um homem bonito, é certo que é genuíno, é a minha hora Coca-Cola vestida a rigor. De fato sujo de mecânico, fica-lhe bem as manchas de óleo, bem mais que as migalhas de carcaça armazenadas entre a gola do fato e a t´shirt julgo eu com publicidade da Tudor ou Ford, ... já foi para dentro, comeu o lanche no curto tempo do costume. Por vezes dou-me a pensar como gostava de ir lá e dizer-lhe ao ouvido, assim baixinho, - deixe a sandes para um outro dia, depois de aprender a come-la. Hora Coca-Cola

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Textil do amor

Obrigatório, isso mesmo, seria obrigatório e de lei as pessoas possuírem uma etiqueta informativa, como a conhecemos em toda a peça textil, de uma qualquer forma ou feitio mas imperiosamente visível. Compreensível a qualquer criatura, uma etiqueta legível em várias línguas, ilustrada a preguiçosos, braille a cegos, debruada a linha reflectora para inesperados encontros nocturnos. Não amassar, não atrofiar, não descuidar, não mimar, não desacreditar, não evitar, não saturar... Magicamente documentada sairia esse almejado post-it pelas traseiras da testa, elucidando os leigos, os caídos numa carência esperançada, embrulhados em viagens ridículas, confusas e tolas. Evitando-se tais frágeis e dóceis encantos por esses “desetiquetados”. Prevenindo-se almejar erros de estado confundidos por pequenas posturas desses “desacatalogados”. Assinalados, defendiam-se assim heroicamente os nossos coraçãos, almas, o corpo todo dessa navegação colossal por histórias de final feliz.

terça-feira, 19 de julho de 2011

Ao Bairro

A frase dançava-lhe na cabeça, a gargalhada não é um sentimento, gargalha aparente, provida ou não de razão, por algum agrado ou enfadonho sentimento, ouvira alguém dizer, a gargalhada não é um sentimento...
E o telefone tremelicou, mensageiro de notícias saudosas: “- Vem jantar! 20 horas em ponto, sem direito a recusa!”. Sem direito a recusa, uma convicta ordem de amizade com mais de dúzia de anos.
À hora marcada Renata tocava-lhe à porta, e sem grande demora já à mesa se apresentava o repasto, o de sempre, ostentado em ilustre wook carregado de massas finas e tricolores legumes, um já clássico de sucesso naquela mesa de amigo. Sentiam-se tão bem acompanhados, preenchidos por tão boas conversas. O tempo era veloz passava entre o dueto de voz.
Subiram ao Bairro Alto, aquecidos pelo Gatão rosé, o destino, o de sempre, fazia já parte da noite pararem no bar dos melhores mojitos. O Bairro? no contexto de sempre, as mesmas ruas húmidas, os mesmos cheiros e barulhos, os mesmos olhares e os mesmos engates de sempre. O Bairro, uma novela, não tão previsível. O Bairro, ali está, ao fio da meada, onde a gargalhada não é sentimento, não é indiferente, é sim acontecimento.

segunda-feira, 28 de março de 2011

Pólen

Partiríamos num paquete. Partiste. Acenaríamos aopadrão e à torre. Não te acenei... Eu içaria as âncoras. Lágrimas larguei. Tu servirias os cafés. Já os não sei servir... E à noite lavaria os teus pés. Como na noite que sonhaste partir? De manhã faria flores. Na clara, sombria fiquei... Sabes que aprendi a fazer flores só para me sorrires? Guardaste-la? Sorri-te, sim, sorri-te esquecendo-me de mim. Não disse que era para ti? Era para ti. Sim, o café é para mim! Sim, para ti... Ainda não sabes que é para mim? Ainda sei quem és. E a flor que deixaram cair era para ti… A pétala de outrora flor...

quarta-feira, 9 de março de 2011

Sabes a café

Peço que me tires um café. Se tivesses pedido com sentido... Todas as noites peço que me tires um café. Não numa noite certa, certamente... Há um mês que peço que me tires um café. Um mês é tanto de tão pouco para mim... Fiquei a semana inteira ansiosa pelo momento em que peço que me tires um café. Ânsia sinto agora sabendo quando não o soubeste fazer... Continuo ansiosa, agora, para que voltes ao café. Não voltarei... Como posso pedir outro café! Já não há... Já não quero café. Não te saberia ao mesmo... café.

Pleura

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Geni e o Zepelim

De tudo que é nego torto
Do mangue e do cais do porto
Ela já foi namorada.
O seu corpo é dos errantes,
Dos cegos, dos retirantes;
É de quem não tem mais nada.
Dá-se assim desde menina
Na garagem, na cantina,
Atrás do tanque, no mato.
É a rainha dos detentos,
Das loucas, dos lazarentos,
Dos moleques do internato.
E também vai amiúde
Co'os os velhinhos sem saúde
E as viúvas sem porvir.
Ela é um poço de bondade
E é por isso que a cidade
Vive sempre a repetir:
"Joga pedra na Geni!
Joga pedra na Geni!
Ela é feita pra apanhar!
Ela é boa de cuspir!
Ela dá pra qualquer um!
Maldita Geni!"
Um dia surgiu, brilhante
Entre as nuvens, flutuante,
Um enorme zepelim.
Pairou sobre os edifícios,
Abriu dois mil orifícios
Com dois mil canhões assim.
A cidade apavorada
Se quedou paralisada
Pronta pra virar geléia,
Mas do zepelim gigante
Desceu o seu comandante
Dizendo: "Mudei de idéia!
Quando vi nesta cidade
Tanto horror e iniqüidade,
Resolvi tudo explodir,
Mas posso evitar o drama
Se aquela formosa dama
Esta noite me servir".
Essa dama era Geni!
Mas não pode ser Geni!
Ela é feita pra apanhar;
Ela é boa de cuspir;
Ela dá pra qualquer um;
Maldita Geni!
Mas de fato, logo ela,
Tão coitada e tão singela
Cativara o forasteiro.
O guerreiro tão vistoso,
Tão temido e poderoso
Era dela, prisioneiro.
Acontece que a donzela
(E isso era segredo dela),
Também tinha seus caprichos
E ao deitar com homem tão nobre,
Tão cheirando a brilho e a cobre,
Preferia amar com os bichos.
Ao ouvir tal heresia
A cidade em romaria
Foi beijar a sua mão:
O prefeito de joelhos,
O bispo de olhos vermelhos
E o banqueiro com um milhão.
Vai com ele, vai Geni!
Vai com ele, vai Geni!
Você pode nos salvar!
Você vai nos redimir!
Você dá pra qualquer um!
Bendita Geni!
Foram tantos os pedidos,
Tão sinceros, tão sentidos,
Que ela dominou seu asco.
Nessa noite lancinante
Entregou-se a tal amante
Como quem dá-se ao carrasco.
Ele fez tanta sujeira,
Lambuzou-se a noite inteira
Até ficar saciado
E nem bem amanhecia
Partiu numa nuvem fria
Com seu zepelim prateado.
Num suspiro aliviado
Ela se virou de lado
E tentou até sorrir,
Mas logo raiou o dia
E a cidade em cantoria
Não deixou ela dormir:
"Joga pedra na Geni!
Joga bosta na Geni!
Ela é feita pra apanhar!
Ela é boa de cuspir!
Ela dá pra qualquer um!
Maldita Geni!


Vindo de : O Mal Educado
Obrigada.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

estranha

Virou-lhe as costas, depois de fechar a falsa pouchet louis vuitton. Nada mais ali se servia. Ao fim de dúzia de passos, Lia percebera que ele não viera atrás e então sentiu liberdade a inspirar forte, encheu os pulmões de ar tranquilo e soltou-o com maior licença.

Uma noite finda, uma igual a tantas outras, tantas foram que Lia perdera a noção. Naquele corpo navegaram mais tripulantes que os de Oasis of the Seas. Ela, indiferente, qualquer água turva servia, seria boa, pura e límpida para se lavar e esquecer o que em poucas horas se transformaria. Lia virou costas, encarou o dia. Alivio certo agora, a sua pouchete abria e dentro dela via, o maço de notas que ainda quente reluzia, a calma surgia.


sábado, 19 de fevereiro de 2011

O amor não admite ilusões

Juliana içava padrão de mulher perfeita, agradável personalidade, bela forma de estar na vida. Aparentava vivacidade e alegria, ofertava sorrisos e bem estar, segurança no saber, quereres carregados de certezas infindáveis, enfim, contagiante Juliana, era uma mulher quase perfeita.
Quase perfeita não fosse coabitar nela uma imensidão de incertezas e inseguranças, sobressaltos e agonias travadas, lutas solitárias em desencantos travados, monologas palestras, enfim, contagiante Juliana, quase perfeita, doce Juliana.

Foto de Policarpo

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

A MiguelB e Sam Seaborn

Dedico esta música a dois dos comentadores mais antigos deste blogue
obrigada,

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Descalça

Acordou com a boca seca e a garganta a doer, muitas horas a dormir de boca aberta. Despertou no silêncio, com a fraca luminosidade e os olhos remelentos mal conseguia vislumbrar qualquer conteúdo, a ausência de sons ajudaram a não se despregar da cama, sem preocupações voltou a cair no sono.
A porta da rua batera como empurrada pelo vento e os passos em corrida pelo que parecia um longo corredor acordou-a. Sentiu alguém perto do seu quarto a abrir lentamente a porta, ao fundo duas vozes falavam, riam animadas no que parecia, pelo eco, uma grande cozinha. O barulho dos sacos de plástico, a porta do frigorifico que abrir e fechar e abria e fechava em igual ritmo a uma cauda que abanava num porte médio de cão,
- mãe, mãe.... mãe acorda...
O suave timbre e o doce carinho daquela voz em nada lhe era familiar. Célia abriu os olhos devagar, meio a medo visava uma menina tão branca quanto os lençóis, olhos verdes espelhados e cabelos escuros, muito finos,
- mãe! Sorriu a menina, que pegou na mão daquela mulher ainda narcotizada, anda mãe, anda ver, compramos muitas coisas para a tua festa de anos, o pai até comprou champanhe para mim, champanhe de criança, claro. Célia deixou-se conduzir por aquela mini-gralha, por aquela que lhe chamava mãe uma criatura com não mais de 4 primaveras.
Chegou à cozinha arrastada e tonta, os pés descalços abandonaram o piso de madeira e sentiram o frio da pedra preta do chão da cozinha, gelou, reconheceu Camila, a sua filha, aqueles olhos grandes e sorriso peculiar era impensável não reconhecer, mas Camila parecera-lhe bem mais velha. Largou a mão da petiz e correu para junto de Camila.
- Camila que se passa aqui? Quem é esta gente? Célia com cara e voz aterrorizada.
- Como assim mãe?
- Quem são estes, onde estamos?
A pequena correu para o colo do pai, o cão soltou um guincho e enfiou-se debaixo da grande mesa como se protegendo de uma assombração.
- Mãe? Atreveu-se sussurrando em voz ainda mais doce a pequena Sofia.
- Xiuuu disse o pai no ouvido da pequena.
- Mãe?! Estranhou Camila, só podes estar a brincar, o Jorge o teu marido a Sofia vossa filha, o nosso cão Bernardo e estamos em nossa casa!!!!
O silêncio e a expectativa não deixou muito tempo para Célia pensar... - ahahahaha família, pois a minha família! Verbalizou Célia em tom irónico, com sorriso amarelo e num gesto improvisado sacou uma pêra da fruteira que ornamentava a mesa, deu uma dentada na suculenta pêra e questionou. - Já agora quantos anos completo hoje?
- 44 mãe!
Célia deixou cair a pêra que Bernardo prontificou-se a concluir, correu pelo longo corredor enfiando-se no quarto, abriu a porta do roupeiro e tentou reconhecer-se ao espelho... Acordou com a boca seca e a garganta a doer, muitas horas a dormir de boca aberta. Despertou com o barulho dos autocarros e táxis da cidade, com a fraca luminosidade e os olhos remelentos mal conseguia vislumbrar qualquer conteúdo, mas a presença da vontade ajudaram a perceber que sem preocupações voltaria a ter uma família.

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Despenteado

Um ritual milimétrico o pente passava pelos finos cabelos, pelas brilhantes sobrancelhas e ainda em retoque de mestre entre o bigode e a mosca que sublinhava o contorno dos lábios. Nenhum fio poderia estar desordenado. Um suave aroma a fresca alfazema vinda da roupa sabiamente engomada e vincada por mãos afectuosas. O guarda-chuva enlaçado no braço, preparava-se para sair sem antes cair em esquecimento a última mirada no espelho do antigo móvel do hall. Ali reflectia-se um homem alto, convicto, preparado para as tramas do dia. Assim bem penteado, engomado e perfumado, firmou-se na saída.

Ao abandonar o lar uma dúvida surgira-lhe, uma desconfortável incerteza, talvez uma falha de execução na sistemática preparação matinal. Atrasou a abertura da porta e recuou para um novo espreitar. A sua aparência parecia-lhe bem, no reflexo tudo confinava ao rigor. Ficou para trás a dúvida de tal ânsia e perseguiu ao que se propunha, abriu a porta sem hesitação e fechou-a com maior certeza. Desceu as escadas do seu primeiro andar e encontrou os raios de sol a brilharem no chão mármore do patamar, sorriu na segurança do encontro de um dia lindo, um dia digno de se amar. Alegrou-se, na certeza de encontrar o sublime, um solarengo sossego. Abriu a grande porta do prédio, seguro no luminoso dia, maravilhado e convicto.

Sem misericórdia, a um servo rigoroso, o vento despiu-o ali com pressa e sem perdão, não deu espaço sequer a uma retorção, um aterrador e maléfico sopro, um impiedoso vendaval o despreparou e desesperou, despenteou e desordenou e aquela agora imperfeita figura, lutou a dois braços para fechar a majestosa porta. Fechou-a. O ritmo cardíaco acelerado e o som do vento ainda arfava a seu ouvido... annhhhh, annhhh, anhhhhh ....amooorrrrrr, dá-me, dá-me annhhhh, sim, sim, dá-me...o coração tranquilizou, afinal era a Susana Tornado, ainda em lençóis com ela quente entre braços.