Este pêlo branco

Aqui, nesta montanha batem os primeiros matinais raios de sol e quando este desce e se apresenta o luar tem-se a sensação de que nada se apresentou diferente do que já foi, do que é ou que poderá vir a ser. Não espere nada, nem deslumbramento nem desilusão, não é essa a brancura que se pretende.
Anseie o nulo para que atinja o supremo início do tudo de novo.
Muito gosto,
Cabra Branca.

terça-feira, 25 de junho de 2013

Pisar


Envolta em amargura saiu para a rua. Admitia-se sem enchimento.
Não transbordava qualquer tipo de sentimento, nem dor, nem admiração, sofrimento ou imensidão. Consentia fel, num pisava de calçada usada, que até achou muito para si. Ansiou um carreiro de pó terra ou uma areia fina e húmida em carícia pelos pés. Entristeceu, era cidade, o que se tinha como simples caminhar, era aquela calçada coçada.
Aceitava-se como uma bica pouco escura, pouco quente e bastante amarga, que num trago a engoliria sem protesto ou registo num livro de reclamação. Que haveria por insurgir? Como um bolo sem direito a recheio, um pastel sem camarão, umas pipocas sem açúcar ou sal, a quem assiste um filme que não é seu. Convencia-se sem persuasão de que jamais seria o dela. Uma fita crua, que não satisfazia os mais ínfimos desejos queridos, não enquadrava e muito menos  abrangeria um pouco do melhor de todos.
Voltou a casa, julgando-se suada por um suor sem odor, sem mancha amarelada, não emanava satisfação, alegria ou tristeza. Teria coração? Batia-lhe sim, sem grande convicção.
Sentou-se sobre uma caixa vazia, olhou sem emoção pelos  dois minutos em falta para um fim. O programa da máquina da roupa suja parou, suou o som, leu-se FIM.
 

quarta-feira, 19 de junho de 2013



A minha vida está estranha. A verdade é que tive de a conhecer. Agora, a minha vida está tão estranha. Conto-vos, apaixonei-me por Ela, não pela vida, mas por Ela, a que conheci. Aproximei-me e apaixonei-me por Ela, quando pela primeira vez a vi. Estranho, como a minha vida se tornou demasiado estranha desde daí. Ainda mais a amei quando a consegui. E agora o que torna a minha vida atual tão estranha é não a ter. A minha estória é sem história afinal, sem princípio meio ou fim, como todas as outras histórias. Ainda assim, a estória que é Ela, se desenrola no que sou, nesta estranha pessoa que fez de mim. Estranho, esta pouca vida em mim. Ela é, Ela é, Ela é o reflexo que reflicto sobre esta coisa estranha dentro de mim, Ela, que lhe digo que é vida. A minha vida. Estranho. Será uma sombra? Uma pintura que não foi pintada ou um semblante de tudo o que nunca começou, não se viveu meio e nunca se sentiu um fim. A minha vida é tão generosamente estranha. Estranho...



domingo, 16 de junho de 2013

Brainstorm



Como era bom perder-me, desaparecer dentro de ti, como quem larga a mão de um alguém depois de um profundo respirar e entrou. Entrou nesse teu avesso, onde só se escuta o teu respirar e se vê essa tua forma que é de verdade amar. No teu olhar nada vi, agora, aqui dentro de ti, nesta sombra de teus fígados, nada é obscuro e debaixo do teu coração melódico o ritmo é outro, é de um chegar distante é  de um partir longínquo. E da parte de dentro dos vidros do teu olhar, nem imaginas o colorido que há, do que não está aí, desse lado de lá. Estranho por ti, porque tu nunca soubeste que tipo de noite te habita, se das escuras ou das luminosas por um luar. Colora esse teu olhar e escuta, não desapareças feito louco sem respirar!  A luz desconhecida aproximar-se-à e as tuas mãos enrolarão num sorriso que virá de dentro, daqui deste teu oposto. E essa angustia desaparecerá e que bom corar...


Acho estranho porque tu nunca soubeste.


quinta-feira, 13 de junho de 2013

seTENTA






00:39, marcava como um contador de divida, no relógio em repouso sobre a pilha de revistas que fazia de cabeceira naquele quarto interior. Era noite de Santo António, o casamenteiro. Lembrou-se que se esquecera no entretanto da vida de se casar. Elevou a cabeça 4 cm da almofada e com algum esforço esticou o braço ao meio copo com água perecido  na extremidade encaracolada da revista Vogue já com alguns anos de modas prescritas. Deu-lhe para a tosse no percurso da palha à boca e julgou que em lugar de matar a sede a sede da morte a sugaria primeiro através daquela palha parda e fétida em saliva por várias noites usada. “Calma”, retorqui, usando a expressão do louco, seu vizinho do lado, mais novo que ela cinco anos, mas bem mais emplastrado. Ainda assim, sentiu-se feliz, por sabê-lo a dormir do outro lado da parede e por a pílula do sono lhe ter feito efeito. Já não o ouvia, nem às ruidosas e porcas flatulências, as que ele sabia que a levava aos nervos acabando com os já poucos fios de cabelos brancos que lhe restavam colados ao couro, os outros, faleciam amontoados sobre o travesseiro de fronha amarelada. Pensou em chutar-se em mais meia dúzia de valerianas, mas achou por bem gozar mais uns minutos de vida. Respirou fundo e tragou dois valentes goles na palha, sentiu o líquido morno e contaminado, quase com embriões, pela garganta. Sorriu no pensar, "ainda fico grávida!" Riu e com o mesmo sorriso entrou naquele azul.

Achou que descera à terra poucos segundos depois de ter dado entrada nos céus, nunca o imaginou, ainda assim, tão burocrático. Mas teve alta para visitar o vale dos pouco vivos ao fim de tempo para si já impreciso. Não descansava em solo paradisíaco sem antes vislumbrar sua lápide terrena.
Confirmara com agrado que o cabrão do vizinho dera seguimento ao prometido e nela teve o prazer de ler:

"tenho-te no coração desde setembro de 2012, descansa em paz nesse agora tão nosso AZUL"
1972- 2042