Este pêlo branco

Aqui, nesta montanha batem os primeiros matinais raios de sol e quando este desce e se apresenta o luar tem-se a sensação de que nada se apresentou diferente do que já foi, do que é ou que poderá vir a ser. Não espere nada, nem deslumbramento nem desilusão, não é essa a brancura que se pretende.
Anseie o nulo para que atinja o supremo início do tudo de novo.
Muito gosto,
Cabra Branca.

quinta-feira, 13 de junho de 2013

seTENTA






00:39, marcava como um contador de divida, no relógio em repouso sobre a pilha de revistas que fazia de cabeceira naquele quarto interior. Era noite de Santo António, o casamenteiro. Lembrou-se que se esquecera no entretanto da vida de se casar. Elevou a cabeça 4 cm da almofada e com algum esforço esticou o braço ao meio copo com água perecido  na extremidade encaracolada da revista Vogue já com alguns anos de modas prescritas. Deu-lhe para a tosse no percurso da palha à boca e julgou que em lugar de matar a sede a sede da morte a sugaria primeiro através daquela palha parda e fétida em saliva por várias noites usada. “Calma”, retorqui, usando a expressão do louco, seu vizinho do lado, mais novo que ela cinco anos, mas bem mais emplastrado. Ainda assim, sentiu-se feliz, por sabê-lo a dormir do outro lado da parede e por a pílula do sono lhe ter feito efeito. Já não o ouvia, nem às ruidosas e porcas flatulências, as que ele sabia que a levava aos nervos acabando com os já poucos fios de cabelos brancos que lhe restavam colados ao couro, os outros, faleciam amontoados sobre o travesseiro de fronha amarelada. Pensou em chutar-se em mais meia dúzia de valerianas, mas achou por bem gozar mais uns minutos de vida. Respirou fundo e tragou dois valentes goles na palha, sentiu o líquido morno e contaminado, quase com embriões, pela garganta. Sorriu no pensar, "ainda fico grávida!" Riu e com o mesmo sorriso entrou naquele azul.

Achou que descera à terra poucos segundos depois de ter dado entrada nos céus, nunca o imaginou, ainda assim, tão burocrático. Mas teve alta para visitar o vale dos pouco vivos ao fim de tempo para si já impreciso. Não descansava em solo paradisíaco sem antes vislumbrar sua lápide terrena.
Confirmara com agrado que o cabrão do vizinho dera seguimento ao prometido e nela teve o prazer de ler:

"tenho-te no coração desde setembro de 2012, descansa em paz nesse agora tão nosso AZUL"
1972- 2042

   

6 comentários:

  1. Esse vizinho tem mesmo mau ar... não se dá o caso de também ressonar de tal forma que não deixa ninguém dormir, não?

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  2. são estes vizinhos que nos fazem ter vontade de dormir:P

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  3. seSENTA...fiquei sentado a ler e re-ler..ainda bem que a esperança de vida aumenta a cada dia--e seTENTA,será uma idade jovial.Casada com alguém mais novo ! Bom gosto sou adepto do mesmo,casamenteiro não serei mas com alguma(s) experiência(s) do "dito" matrimónio.Palha hummm saudades de um bom cubano..Mas parar é parar tudo.!Gostei ! por isso re-li e re-li e afinal foram 30 anos de convivivo..rsrsr Lindo-Linda.

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    1. Obrigada meu amigo, e um beijo gigante em ti!

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