Este pêlo branco

Aqui, nesta montanha batem os primeiros matinais raios de sol e quando este desce e se apresenta o luar tem-se a sensação de que nada se apresentou diferente do que já foi, do que é ou que poderá vir a ser. Não espere nada, nem deslumbramento nem desilusão, não é essa a brancura que se pretende.
Anseie o nulo para que atinja o supremo início do tudo de novo.
Muito gosto,
Cabra Branca.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

lost

todos os dias à mesma hora, à hora do lanche, com as mãos sobre o teclado, dou-me conta que o meu corpo corresponde a um sinal já automatizado, fazendo com que o meu pescoço rode na direcção da janela e vislumbre a imagem de um ritual banal, que não despertaria interesse a ninguém. Mas a mim sim! À porta daquela oficina lancha-se uma sande de qualquer coisa acompanhada por uma Sagre mini! Da minha janela … observo que tem cara de miúdo, olhinhos pequenos, sorriso inocente e sincero, cabelo raso a desenhar o contorno da cabeleira que a separa da testa, já com ligeiras rugas, corpinho seco e a pele morena. E eu, sempre me lembro de o ver, desde que as minhas hormonas chamaram por mim. Esse homem que vos falo está ali, no mesmo sítio de sempre, à mesma hora de sempre a comer a sua sande de qualquer coisa com a ajuda da sua mini, todos os santos dias, menos ao fim-de-semana, e hoje é sábado, não está lá, mas as minhas mãos sobre o teclado param, o meu pescoço vira, endireito as costas, regalo os olhos lá para fora, e viso o portão cinzento da oficina que ostenta o sinal de proibição a parar ou estacionar. Ele hoje não está encostado à ombreira de pedra que contorna o portão. É mecânico da oficina, vivo num andar com vista para a garagem, e ele já abriu o motor do meu carro! Terá a minha idade e uma voz sensual, mas depois à hora do costume, vem comer a sande de sempre e beber a mini do costume à porta da garagem, à porta do trabalho… a anilha no dedo, do tamanho de uma nave, brilha quando levada à boca a mini, penso… quem aguenta vê-lo a comer sandes e a beber minis? Comer sandes em segundos, e em menos que isso tomado o rosto bonito por uma forma de balão, não mastiga, engole com a ajuda da mini! Agora ri, graceja com o colega do ramo, e com a língua lava os dentes da boca toda… e assim se perde um homem bonito, é certo que é genuíno, é a minha hora Coca-Cola vestida a rigor. De fato sujo de mecânico, fica-lhe bem as manchas de óleo, bem mais que as migalhas de carcaça armazenadas entre a gola do fato e a t´shirt julgo eu com publicidade da Tudor ou Ford, ... já foi para dentro, comeu o lanche no curto tempo do costume. Por vezes dou-me a pensar como gostava de ir lá e dizer-lhe ao ouvido, assim baixinho, - deixe a sandes para um outro dia, depois de aprender a come-la. Hora Coca-Cola

12 comentários:

  1. gosto particularmente do facto de pegarem em alguém que nunca iria ter uma conotação sensual e mudarem isso completamente.. um bem aja para as minis e coca colas deste país ;)

    ResponderEliminar
  2. eu gosto de minis e de sandes (pouco importa se ao lanche, ao almoço ou ao jantar, importa sim matar a fomeca) também gosto de muitas outras coisas que ilumina o olhar e a imaginação.

    tens sorte, tens uma janela e podes olhar para a rua e apreciar o que lá se passa.

    a minha janela para a rua é a do computador, sem mini e sem sandes.

    boa sandocha ;)

    ResponderEliminar
  3. Water, Gosto do que se julga pouco fazer muito! Um beijo onde quiseres, pois o teu blogue é bem quente, obrigado pela visita!

    ResponderEliminar
  4. Imperador, se essa é a tua janela, vês mais que muitos, qualquer das formas como sou uma Cabra branca bondosa, ofereço-te um café à janela desta minha montanha! Aparece sempre para veres como é!
    Beijo-te.

    ResponderEliminar
  5. Bianca, dá-me as coordenadas e bato-te à porta, não tenhas qualquer dúvida.

    esta janela que eu tenho oferece muita coisa, mas não oferece algo que eu muitas vezes procuro e aqui não tenho, um bocadinho de luz do sol para me aquecer a face e olhar perdidamente numa rua calcetada onde vão passando desconhecidos num vai e vem que não sei para onde vão nem de onde vêm.

    tenho uma parede branca à minha frente e uma luz amarelada que finge que me ilumina.

    mais do que quem está do outro lado da janela, és uma sortuda que pode olhar para a janela e ver o que do outro lado passa

    ResponderEliminar
  6. Pedro Ferreira, amor??? Não! Fetiche? Sim!
    Obrigada pela visita a esta montanha, volta porque aqui tentamos quase sempre estar bem!
    Beijo

    ResponderEliminar
  7. Imperador, não tenho dúvidas que o farias :-) (medo)! Solinho há que sobra aqui pela montanha, o pior é para quem insiste permanecer pela sombra :-)

    ResponderEliminar
  8. Está tudo nos pormenores. Como sempre...

    Beijo no Lombo

    ResponderEliminar
  9. Meu REI e sem pormenores, terá graça alguma?
    Obrigada por esse beijo no lombinho, amo!

    ResponderEliminar