Este pêlo branco

Aqui, nesta montanha batem os primeiros matinais raios de sol e quando este desce e se apresenta o luar tem-se a sensação de que nada se apresentou diferente do que já foi, do que é ou que poderá vir a ser. Não espere nada, nem deslumbramento nem desilusão, não é essa a brancura que se pretende.
Anseie o nulo para que atinja o supremo início do tudo de novo.
Muito gosto,
Cabra Branca.

sábado, 22 de maio de 2010

Papagaio

Foto Armanda Com
A reformada a desempregada e a desocupada
Na esplanada tomavam um café com gelo. Pés descalços em cima do muro, elas avistavam a cidade que fumava no calor.
A desocupada arejava-se, pernão aberto e os dedos dos pés escancarados parecendo uma pata de unhas pintadas a vermelho. A pequena brisa atravessava-lhe entre os dedos ventilando em remoinho na renda da cueca. - Ai minhas queridas, a velha do terceiro andar da rua Castilho patinou, estava a ver que nunca mais, credo a velha parecia-me ir durar tanto quanto o papagaio herdado ... o cabrão do papagaio já é do tempo da sua tia avó, deve de ter para cima de 100 anos e ainda dá cartas a chamar nomes ao sapateiro do r/c do prédio em frente. Bem, o bom disto é que posso alugar a casa agora por justa renda, os 25 euros eram ridículos! É certo que a casa vai necessitar de obras, todos os andares já estão impecáveis, são casas maravilhosas, pé direito alto e janelões que maravilham qualquer um... mas não sei o que fazer com o raio do papagaio morador numa gaiola centenária ainda lá pregada ao alçado da janela da velha...
- Mas oh desocupada, queixas-te tu de um papagaio que come sementes de girassol e ainda manda umas bocas ordinárias a quem passa...
- Não, não! Ele só arrota ordinarice ao António Sapateiro! Mas que faço com ele? A velha era sozinha, e eu como senhoria prometi ficar com ele à morte dela, que cruz, eu uma maravilhosa desocupada que faz jus ao nome, agora a ocupar algum do meu precioso tempo desocupado com um papagaio... - Ordinário!!! Repetiram as duas amigas em coro.
- Olha reformada o papagaio era boa companhia para ti!
- Para mim?! Porquê para mim?
- Porque precisas de ocupação! Diz a desempregada com o seu mau feitio.
- Olha parece-me bem que a ti é que te fará falta, pode servir-te como dupla na cena do mal dizer, seriam imparáveis! Retorquiu a reformada já mal disposta.
- Tu vês muitos filmes reformada por isso é que nunca saíste gloriosa daquele teatro onde ofertaste os teus anos de beleza e trouxeste rugas empacotadas a naftalina!
- Bom, bom vamos lá ver senhoritas, comportem-se a questão só passa por um velho papagaio... - Cala-te desocupada! Gritam as outras duas.
- Cala-te sim, tu lá sabes o que a vida custa, nunca vergaste a mola para nada, até as rendas dos teus glamorous apartments recebes por transferência bancária! Dizia a desempregada envenenando mais o ar abrasador daquela tarde de esplanada, pouco faltava para a lavagem da roupa interior...
- Mas vocês querem ver isto... cá tenho culpa do sucesso que levo como vida?!
- Sucesso???!!!! , mas que sucesso? Espumou a reformada, o sucesso que tiveste foi o que me caíra das mãos, sim ou julgas que se meu sonho transformado em desilusões, o tempo grandemente ocupado, levado no teatro, na loucura dos itinerantes, terias casado algum dia com o Jorge, com o meu Jorge!?
- Olha reformada, o Jorge nunca te amou, amava sim o espectáculo e tu fazias parte da representação do falhanço, tu sim, foste a primeira dama, mas eu sua mulher!
- Calem-se, calem-se!!! A desempregada já desesperada, queria parar por ali, embora de unhas sempre afiadas, perseguiu da pior das formas. - Calem-se mulheres rancorosas, falam de barriga cheia, no fundo a pior sou eu...
- És??!! Questionaram em dupla voz irónica.
- Sim sou, fui, ou sei lá, nunca passei de uma balconista na venda de lingerie, onde o Jorge comprava num dia um 36 copa A, num outro um 38 copa B, até que deixou de comprar e passou a usufruir do seu bom gosto por roupa interior neste meu corpo de sereia...
- Corpo de sereia? Queres dizer de monstro de loch ness!!! Intoxicava a desocupada. E entre dentes viperinos saia-se a reformada; - Balconista..., brochista isso sim!
- Calem-se suas mal fodidas! Putas e velhas ressabiadas! Isto tudo por se tratar de um papagaio centenário? Qual quê, uma desocupada que areja as rendas das cuecas numa qualquer esplanada, a quem já ninguém quer ver nem a cor quanto mais o cheiro! Aí minha querida, nem a operação plástica te safa! E uma reformada frustrada que vive no drama de um palco de vida falhado, nem para ficar com a fortuna do Jorge teve pinta, eras bela sim minha querida, eras, e isso de nada te valeu. Eu minhas lindas, nunca passei da brochista balconista??? Certo! Mas os meus menos 20 anos é que vos fode! E o Jorge bem soube a diferença, soube o Jorge e sabe-o agora Bernardo, a quem vós deram em cima na festa do fim-de-semana passado. É, é o meu actual, Bernardo! Tenham um resto de boa tarde minhas doces companheiras, mas o dever chama-me, é que nem estou desocupada, nem posta de lado, arranjei emprego!
- E quanto levas à hora? Pergunta secamente a desocupada.
- Chega para vos pagar o café de amanhã... à mesma hora?
- Sim, à mesma hora, se o tempo não nos lixar o tempo! Aligeira a reformada.
- O tempo o dirá! Diz a desempregada com um sorriso sadio. Até amanhã. Cumprimentos ao papagaio!
- Até amanhã.
Às mulheres de toda a condição;


4 comentários:

  1. Tu quando engatas com os dedos só paras mesmo no fim!! Se és assim boa de dedos, OH GOD, que deves ter o dobro dos atributos quando utilizas outras partes do corpo.

    beijos com charme

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  2. - De que é que os homens falarão quando estão entre eles?

    - Sei lá!... Do mesmo que nós...

    - Ordinários!!


    Beijinho no pêlo...

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  3. Meu querido Charmoso, é, eu sou mesmo muito BOA! ;-)
    Beijo

    Meu Rei, meu rei, por onde andas tu??????? Beijo no teu lado verdinho.

    Garfanho um beijo a ti.

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