Este pêlo branco

Aqui, nesta montanha batem os primeiros matinais raios de sol e quando este desce e se apresenta o luar tem-se a sensação de que nada se apresentou diferente do que já foi, do que é ou que poderá vir a ser. Não espere nada, nem deslumbramento nem desilusão, não é essa a brancura que se pretende.
Anseie o nulo para que atinja o supremo início do tudo de novo.
Muito gosto,
Cabra Branca.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Mente com todo o pecado,

porque não passas de um pecador.


Mente. Acredita num dizer que em nada se assemelha a sombrio, nem esse abraço em nada vago ou que bafa a mofado por um tempo que não existiu. Mente-me. Esquece o amanhã, o agora abona, quer brilhar como um sol bichanando uma só palavra aldrabona. Mente-lhe. Diz-te de um amor cego, que talvez seja pesado, diz-lhe sem medos o que queres, agarra e mente, vagueia crente nessa tua mente que ludibria um bocado. Mente-te. A noite vai alta, tão alta que se pode cair, arrisca em pecado, não tarda dirás adeus. Mente-lhes. Agora beija-as, dizendo-lhes que não vais nesse escuro, pelo menos não nessa noite e estarás ao amanhecer, não serás uma palavra solteira que mente no olhar. Mentiu. Salvou o momento esquecendo o ontem, esse é o som do movimento lá fora que fez tombar a chuva da trovoada, naquela cama dedilhou de prazer em forma escabrosa de quem disse, “minto pelo esquecer do amanhã”. Minto-me.

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

vontade efémera


o que fora o passado poucas razões deixara para lhe motivar o presente, certo era que o sentido perdera-se. Aguardou por ele como sendo um amor de futuro, privou-se de outros amores, passou a desconhecer a própria palavra – amor – e um dia ele chegou. Vinha carregado de mentiras, pois não tinha como mostrar a verdade, nem como enterrar o passado. E veio ele, disfarçado em posturas, igualado a um presente só com caixa embrulhada. Lá dentro, recheava-se a vazio, por incertezas do que se andava a fazer. O amor.
Estavam ali acreditados disso, sentados no centro da sala, num requintado restaurante, duas secas criaturas. Repastaram surdos, engoliram mudos, afinal não se conheciam, já mais se viram. Ainda assim à mesma mesa comiam vidas vagas, passadas, jantavam mágoas, naquela elegante mesa. A toalha, imaculadamente branca, tal como o prato, os talheres cintilavam espelhando dois rostos consumidos por uma espera iludida e os copos brilhavam do lustre passado pelo pano macio, o que os livrara de qualquer impressão digital. Nada se sentia ou fazia sentido, nada aquecia, nem deixava rasto, muito menos nódoa. Oooh como uma nódoa faria toda a diferença sobre o prezado requinte. O cuidado a mais a não ser magoado, um argumento pouco sujo, pouco lavrado, muito menos rubricado, nem a gordura, nem a um só odor ou suave aroma a amor... falhou, não morava, nunca morou, para quê o ter esperado? Arrogância, altivez, quem sabe uma enorme estupidez!

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

O perfeito assassino


“então começamos com a carta do ano para o ano inteiro: a morte; a mudança, algo se renova porque algo vai "morrer". A morte, a carta mais forte de todas, vais dar início a um novo ciclo, 2013 vais começar de novo!”
estou a ler a tua morte e sinto-a tão minha, quando ainda não me dera ao desplante de a pensar só para mim. Mas agora preciso dela, quero-a. EU quero a morte, desejo-a, com maior egoísmo a espero. Paciente aguardo-a a ser celebrada pelo meu perfeito assassino.
Estranho este sentimento que inauguro ao ler-te, quase que te escuto a sussurra-la em voz branda junto ao meu pescoço. Contas-me o que a morte nos conta - a morte - quando afinal ela ainda está tão estranhamente viva, com um desgaste imenso nas entranhas mas que vive num corpo ligado a uma máquina, e essa não se quer desligar para deixar a morte morrer de vez.

Que me contas tu desse fascínio de morte? Que me faz quere-la por tudo o que seja nosso? Será uma arrogância que roça à minha altivez moribunda? Saberia-a assim confortável, a morte, a minha, parecesse tanto com a minha...  Leio, tenho um calafrio de dor, quem sabe pelo frio ao esmiuçá-la, estarei a chocar morte? A abrir lugar a uma ferida fingida a cicatrizada, onde o vírus entra sem esforço e sorve de dentro para fora como um shot rude batido no final na madeira do balcão de um bar agonizante?

E escorre-me um lágrima pelo gosto de saber de tua morte, da viveres, uma morte tão demoradamente doce, que grita prazer de a sentir como tal, como a quem do corpo só caíram os pedaços de carne um dia árduos amados, que esses bocados já não mais fazem falta. E o ranho mancha-me as mangas do casaco de andar por casa ao assistir os quilómetros percorridos da capela onde velavas até ao chão onde serias aquecido pela terra e um dia esquecido pelo tempo.

Invejo-te agora, sabendo que a tua morte já é ela tua serva, e que te cose as feridas do corpo a linha rosa e ainda as pincela a desinfectante de amor que um dia será o eterno, ela que te abria rasgos num estado de demência, ela queria se ver espelhada na luminosidade do teu sangue, das feridas angustiadas que eram suas frustrações, afinal ela é a morte.
Esclareço-me no teu estado, aquele que um dia foi de defunto e apaixono-me por ti.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013




Quis a tua nudez.
Não quis que te despisses.
David Mourão-Ferreira









Jean-Baptiste Mondino

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

azul


Nasci homem sem me aperceber que mulher seria ou terei nascido mulher? Escrevo do pouco do homem que sei e dalguma coisa de mulher que terei. Afinal, não serei nem homem nem mulher. O que escrevo, o que falo, é um acredito que acreditei, no homem que serás, na mulher que talvez serei. Tu que homem és, revela tudo o que quero saber, tudo sobre o que não saberás contar. Não será preciso, afinal como mulher digo, nem numa palavra acredito, e como homem trago em mim um macho aflito! Sei, mais fácil desventrar-te que revelar-te. Tu homem, de uma mulher saíste do escuro feminil, dum ventre sem limite. Mas te descortino, sem grande desatino e ri-te varão, lá sabes que razão, o porquê de teu tamanho, concederam-te envergadura, tal gótica arquitectura, doaram-te força e mestria, algum poder empacotado e sabedoria. E tu, sorri princesa, a ti sobrou beleza, suave brejeirice, uma forma sábia de sacanice. Eu? Já disse, nasci mulher sem me aperceber que homem seria ou terei nascido homem... que importa, escuta, bebo presunção, engulo em julgada permissão, até dou por desbarato este parecer ingrato, essa única costela de Adão que agora parece bem por ocasião. Serei fêmea em confusão? Nada disso, só quero uma razão, que há, diz másculo altivo, existe na mulher que sou e no homem que me mora, sim, sem mais demora, todo tu és macho flora, fêmea rendida, dignos de o ser, agora toma como tino, sorve esse comprimido, que tem cura. Acordamos agarrados, cegos sem sexo concedido, engole outro curativo e vejamos de repente tudo o que é diferente.

domingo, 30 de dezembro de 2012

Beijo caro(a)


Cubro e cobro a beijos o que tiver de ser, neste meu eloquente desejo, sei que nem vejo, aposto num desconecto anseio, até o chão do mundo beijo. Beijo as expectativas irreais , nada é em vão, nem tu penses sequer num suposto não. Tem de ser assim, enfeito o beijo, encanto e iludo, suspenderam minha viagem e não quero merecer outro lugar se não este que é de tão bom estar, onde passo a cada hora tinta a 5 letras e sai mais um beijo e outro a seguir, que mal tem é um beijo, quem me impede então, se não é doce é acre é viver de ocasião. É um beijo vermelho, que meigo, aparentado a frio, suado a amargo, que queima, cola no lábio como o cubo de gelo cortado do glaciar, lânguido feitiço, indeterminado cobiço, beijo perdido num fundo de um quadro a veneno pintado, penado num milagre de amor fantasiado, uma promessa de não pernoitar só. E então, faz de conta, que mal há, é um ensaio num espelho beijado, um fazer amor como a colher engenhosa dona do açucareiro, é amarrar como erva enrolada puxada demora num charro travado. Deixa-te livre levada, embarca afinal no beijo, beijinho beijado e deixa-me ver-te sorrir, como gosto de te ver sorrir...
Quanto custa esse beijo?

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

genteS


se queres saber
se queres sentir ou provar
não te podes travar
não podes dizer não gostar
levado por nuvem sem chuva
uma brisa alheia que anseia
por genteS diferente
há e se sente
nalgum ambiente
tudo a brilhar 
como deslizar no luar
ilumina o encontrar 
vazar o acreditar
há garra
vontade de entornar
mas se queres saber
ou mesmo provar
não te podes esconder
não te podes assustar
e vem jorrar


terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Despertar o amor

Shiuuuu, que vontade dá dizer, shiuuuu, quando o que queríamos que nos parecesse novo afinal só mudou de lugar. Shiuuuu, porquê não deixar que tudo , todo o movimento tome o seu devido lugar, se é ou não o seu, o merecido, louvado, ansiado ou querido lugar, que tome um lugar. Se não, não o tirem de lá, nem o vento, nem a gente. Shiuuuu, as coisas bonitas vêm devagar, como pássaros quando aprendem a cantar. Se não, se não pertencemos acolá, deixem estar, Shiuuuu, não removam desse estar. E deixem acabar calmo, bom e formoso sem ser confuso, sem mais parecer que quem mudou sem ser reconhecido foi mesmo o próprio lugar! Shiuuuu... eu quero caminhar, ir ao teu encontro, a um honesto amar, em que nada mais é, que o acreditar, voltar para casa e reconhecer a fala da cidade, o cheiro da tua rua a linguagem das tuas escadas, o aroma do teu 3º andar e beijar... beijar-te a boca, roubar-te o silêncio, encantar-te com o olhar, se me deixares entrar, ir lento com acento. Shiuuuu, se tu quiseres novamente a beleza de compor a música num abraço, do embaço, do palhaço que fui, que sou e se reconhecesse nesta que é a tua, a tua cidade, neste que é o teu lugar que invejo e me faz libertar. Shiuuuu

domingo, 16 de dezembro de 2012

não se pode morar,
 
nos olhos de um gato...

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

on.DE fire

onde me pertences? onde me queres? onde me assaltas? onde me aqueces? onde me levas? onde me cuidas? onde me proteges? onde me lembras? onde me lambes? onde me prendes? onde me engoles? onde me escolhes? onde me escorres? onde me quis? onde me montas? onde me contas? onde me abraças? onde me levas? onde me danças? onde me cansas? onde me envolves? onde me absolves? ONDE? ...?

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Fuma um cigarro,



que isso passa.

...lá quero saber para que lado te deitas e de que lado acordas, se te aguentas se sorris ou choras, se tens quem te implora, se o teu amanhã demora, se o teu dia é ilusão e a noite não passa pela demência da minha imaginação.  Estou cansada de conversa, deixa-me, larga-me da mão, faz o que quiseres desse teu serão, já me tiras o chão, queres roubar-me o tesão? Dá fim à tua angustia, enfim, nada mais à minha custa. Perdes, nada já me deves. Agora o que te assola, assalta, atrasa ou demora? Não dês, já não crês nas contas que teu Deus fez. Arranja quem te deites e se teu caralho tem enfeites, não me lembro, nem esqueci em jeito de despeito, saiste do meu peito, agora com todo o respeito,
vai-te foder!

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

dEl(e)

Acordou gelado, pingava do nariz e a baba desenhara-lhe um rio congelado pelo queixo.
Estou pendurado! Constatou. Pendurado num estendal!? ...Céus como aconteceu isto? Questionou-se desorientado e pensou alto:
- Mas que mundo este? Será o meu?
O céu era pintado a púrpura e o frio era extremo e húmido. De repente  bateu-lhe o medo e achou que estava no mundo dos vivos, - Ohhhhh o medo é dos vivos! Tenho medo! Estou cheio de medo!!! Gritava-lhe o interior, as entranhas tremiam mais que de início. Ao frio juntou-se-lhe o temor. À sombra, as ideias congelavam-lhe, ainda assim visualizou na sentença uma coroa, uma imagem de honra e de volúpia. Era a de uma delas, certo disso, de alguma das graciosas mulheres que lhe passara na vida.
- Mas onde estou? 
Optou por um pouco de silêncio. Chegou lá, percebeu, perdeu uma coroa que o iluminara, que lhe dava um outra luz, que o aquecia e ele nem acreditou naquela magia.
Visava ainda assim a mulher, a que sabia que coroa não tinha. Viveu aquela vaga imagem e a custo esboçou um singelo sorriso. E começou a envelhecer ou a sentir-se velho, não o sendo, não o era, nem por sombras o seria, mas não tinha mais forças nem reacção, babava, uma aguadilha frígida.
A chama já não morava ali, nem lhe caia em cima. Estava envolto num físico escuro, para além de estar pendurado... aclararam só as lembranças dEla, da que já não cavalgava as fantasias, nem o animava ou enchia de poeiras os dias mexidos. Parado, pendurado no universo...  
- Bolas!!! Estou no estendal do céu.
...fodasse estou morto!!!

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

te vaLER



Quero-te de cama, na minha ou noutra, aí a tua não é especial e esta aqui  é igual, mas se na cama te lanço, te envolvo te danço e no balanço apresento-te o meu vilão, um macho, um ser garanhão, um homem sensual ao teu desejo genital, como eu não há igual.
Viro-te, possuo-te com língua que te tira dessa mingua. Vibrarás, arranharás e morderás, ficarás enfeitiçada, à minha voz te renderás. Sou um cântico que flutua no teu corpo toda nua. Se for nesta casa, com gana te entrego ao chão, mas com toda a perfeição como-te desde o rés do chão, assoalho-te, abafo-te e agasalho-te, o meu corpo que destila, mas sem pressas na visita, exploro-te, vinco-te e no fim grito, tomado pela tentação de não apressar tal aflita penetração. Apresento-me tormentoso, desejoso por te ter, mas no fundo confesso, que agora só te estou a ler...


domingo, 9 de dezembro de 2012

DEVAgar


Gostamos assim. Apertas-me com mãos de aço, durante o enlaço, percorres-me o corpo, fecho entre pernas o sexo que aperto, e estás mais perto mais dentro de mim, agonizas o sentir, enrijas de prazer, despertas a dor do querer, queres mais, soltas um ai e eu um anhhh e é bom deslizar-te dentro de mim... devagar, devagar a entrar, pouco ar a custo de arfar, as veias a queimar sinto-as quentes como correntes e avolumas, me deslumbras. Tiras de mim, levo-te daqui, partimos desejados, amados enfeitiçados e quando quase quebrados, sublimes almejados, meu corpo recai sobre o teu, as nossas peles húmidas colam, abraçam e beijam e por baixo delas os cavalos armados celerados, ameigam latejando por paz. Adormecemos quebrados, ainda entrelaçados até o amanhecer.

sábado, 8 de dezembro de 2012

Cinder ela


DespIr. Quando queres? Disponho-me a ti, abro, rasgo, arejo o corpo, dou-me sem esforço, cerro os olhos e lambe-me, lambuza a teu gosto enche-te à medida, abro-te a braguilha e sais em festival, gritas aflito, e  eu abro, abro-me toda ao deglutir do teu sentir, ficas parvo tão baralhado, não sabes onde entrar, já sem estar, quase sem respirar, sem sentido regozijo, contemplas alado no olhar. Dá-me a esmola, meto-a na grafonola que canta sobre nós. Estou quente, tão quente, escaldada a tinto, tudo na mesma, estarás aturdido ou iludido e embarcas nesta viragem? Ou é só tão simples miragem? Não! Não entres nessa viagem, ela não é dessas, controla a razão e entrega-te à violação. Dispo-me, abro-me, rasgo-me, dou-me sem esforço... Diz? Não te ouço, perdeste a opinião, então vem mesmo alem de qualquer opção.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

tirAR


Não sei quem és, chegas a mim, sem hora, sem tempo, mesmo sem prazo, vens e entras sem chave, não há chaves nem porta afinal e ofereceste a mim, sem querer saber qual condição, sem razão, sem vontade ou em gratidão, pouco importa, empurras a porta que não existe, nem janelas há, e tu és uma corrente de ar sem bloqueios nem passeios, uma aragem arejada, sem lamentos preconceitos, sem jeitos em arabesco, és fresco ar que desliza no que encontras, numa figura que é corpo. Hoje és moreno, amanhã serás gordo, ontem misterioso, antes sedutor, terás barba, serás cheiroso. E que importa, que acarreta? dás-te a cem e sem nãos, sem porquês ou porque não, tuas mãos eu quero assim, como nunca conheci, sem linhas em reticência, aspas crespas, virgulas convertidas sem razão, sem pensar em interrogação, quero-te uma canção. Pouco alterado, original e esguio, hasteado sem fio, alheado, um pouco atrapalhado, talvez até assustado, mas quero-te afinal, talvez um pouco louco, louro e magrela, sedento ou até corpulento, como o tal vento... E nada sei de ti, nem espero que saias a mim, deste-te assim, em físico alteado, risco de sabor alcançado, quase claro partilhado e agora rasga, mete-me a nu como tu, solta, rota, translúcida e vaga, envia-me a tal carta, mas agora que cá estás, anda não olhes para trás a porta não está lá, e pouco importa. E janelas? Janelas não as há!



quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Conversa do minete


- …para o caso de precisares tenho a dizer que tenho uma língua marota atrevida e muito curiosa.
- para o minete?
- sim!
- ok, fica registado!
- adoro! sou um grande mineteiro, passo tudo a língua.
- como um pente fino?!
- sim, língua fina e grossa e não me fico só pelo sitio tradicional, sou guloso…
- estou a ver, estou a ver.... Gps na ponta da língua, ondas curtas e medias… e isso é coisa cara ou fazes de borla?
- borlas!
- e ao domicilio?
- completamente, estás em casa com aquela vontade e pumba lá está o homem do minete!
- fantástico! tipo como chamar um taxi ou a entrega de uma pizza a casa?
- sim, sem nada em troca o minete e até logo...
- até logo!



terça-feira, 4 de dezembro de 2012

tocAR


Sonhei contigo. Se imaginavas que te sonharia. Não só sonhei, aprovei todos os segundos os minutos desse estar. Sabes lá tu, como o desejo chega a tocar, a agarrar a luxúria que és, a linha, a forma esculpida, a pele macia, sedenta magia, desafio escondido, desejo molhado, quente estado, cheirosa cobiça, viçosa e vaidosa.
Contigo és tu, sou eu.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

genteS


levo genteS perturbada
pedaço de carne desgraçada
sou íman dos mal amados
dos incompreendidos
dos deixados
um fardo deles
uma cruz minha
dai-me pausa 




afugentem esta saga
genteS normais escutai
ainda respiro
respirais?
arejem meu corpo
que passa de peles em peles
num crer que atino
num desenlace desatino
não tarda pego outra
 outra...
epidemia

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Pénis


Vou contar-te uma coisa, ninguém sabe, shiuuu, escuta bem... Tu tens tanto a dizer, mas estás travado, tanto a sentir a dar e a contar,  que ficas apavorado.
Olha, até começas a chorar, descansa, ninguém vê, nem tu vês que incitas tanto o sonhar só de as olhares...
Ei, pareces encurralado, tantas elas, a pedirem o teu amar. E o teu coração começa a bate forte, cada vez mais enclausurado, a garganta a secar e os lábios a pegar, e as tuas lágrimas são as que matam a sede, ao teu desejo a ao delas desesperado. E tu só soas de as olhares... Elas, as que exigem de ti, que sentem para ti, que falam de ti, e que emanam por ti, como parecendo existir por ti. Não sejas tonto! Sabemos que és torto, mas que não queres  só esse mundo a teu lençol!
Ouve, mas não te deixes abater, por aquele que tu já não és, com esse ar acertado, deixa de ser abusado, de te deixares de lado. Elas querem-te sempre içado! Mas se não sabes como fazer, não o faças por zelo, sente só a falta no apelo. Escuta a fala do teu lado, mesmo sem razão, esquece a outra opção, e porque não dizer também "Não!"?
Tem prazer, deixa-te viver, eleva no puro prazer. E elas? Deixa-as dizer, catalogar-te de murcho, frouxo ou mesmo coxo!
Faz só por prazer,
e não contes a ninguém.

terça-feira, 27 de novembro de 2012

Em todos os lugares o amor acaba


Comecei ontem a odiar o amor pai. Supostamente o amor seria uma coisa boa, não era assim? Porque razão não gosto mais dele? Não o quero! Ontem já não o queria e hoje já o afugento! Ele é cheio de artimanhas que me assustam e me fazem parecer que devo alguma coisa a alguém, uma dívida afigurada a dádiva! E com todo o meu bom senso e minha inteligência assumo esta posição de odiar o amor. Já o odiava ontem e por tamanho descuido foi ontem que o perdi. Perdi o amor que levava na mão, era um pacote embrulhado a papel craft envolto numa corda áspera e fina, que acabava num laço mal feito! Acho que ficou num banco de um jardim onde nunca fui, faz parte agora de uma paisagem que eu nunca vi. Quem pai? Então, o amor! É disso que te estou a falar, do amor empacotado que perdi!
“O amor...”, dizias-me tu, que havia em gentes que davam pouco do muito que possuíam, e havia os que de pouco tinham e davam inteiramente. Confiam? Ou são pessoas confiantes? Haaaa generosos da vida, querias tu me fazer acreditar! Já te disse, odeio o amor e sou bem bondosa quando o afirmo! Aquele pacote era um cofre de ferro pesado que agradeço o ter deixado por lá, naquele banco verde de jardim rodeado de flores que lhes desconheço nome. Para quê saber o nome das flores? Elas são bonitas de se ver, precisaram que lhes sabemos o nome? Disparate, mais um romantismo compulsivo!
Não! Não estou vazia mas sim a esvaziar, nunca a amargar, nem penses nisso pai. Só quero odiar o amor e pronto! Não o quero neste cheiro ou molde ou o que lhe quiseres apelidar! Quero-o com odor a uma fragrância sem nome, sem conexão, sem baptismo, sem significado tatuado. Dessa forma até me pode agradar, mas ontem perdi-o sem remorso. Odeio não ter remorsos! Odeio quem não tem lugar, como as encruzilhadas do amor sem intenção, onde se perde o sentido que se transforma na doença que é o sonhar.
Só quero odiar o amor, sem apontamentos trágicos. Sem abraços de eternidade que sabemos não existir. Nada é eterno, o amor também não, o amor é uma intenção, uma predisposição. E eu não estou bem disposta com ele.
Hahahaha, pai nem imaginas, estou a ver o pacote do amor lá onde o esqueci, no banco, no tal, não sei quê jardim. E são quase seis da tarde está a noite a querer chegar. Está um senhor de tenra idade a telefonar do seu telemóvel para a esquadra local. Imagina pai, suspeita de uma bomba relógio. E se é pai, se é... é o pacote do amor, embrulhado num papel tão simples e enlaçado a guita tão pouco nobre...


"Em todos os lugares o amor acaba; a qualquer hora o amor acaba; por qualquer motivo o amor acaba; para recomeçar em todos os lugares e a qualquer minuto o amor acaba." Paulo Mendes Campos

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Margem


Se for eu uma passagem, quero que saibas umas coisas, tantas de quem já sabe;
se o meu brilho ofusca na maior noite de luar,
se o meu jeito reguila enche um dia de neblina,
ou mesmo um só meu olhar,
minha pose ou forma de estar,
embebeda quem nem se ousa a encarar,
sem toque, nem afronte, sem confronto minimal,
então eu sou,
sou a tua bola de cristal,
onde vês um mar fresco no verão,
um abraço de outono,
suave vento a acalmar,
um inverno frio amornado,
ou a primavera a mão dada, suja e salpicada,
sou quem te refresca, te aquece, te pinta na paisagem,
sou o teu lume, a água, o vento sem lamento, a terra com raiz,
sou a tua mulher inteira,
sem esquema ou gadelha,
imparável, acreditada,
impagável, amada,
impalpável, sonhada.
Sou tudo o que renegas,
e tudo o que te leva a ti,
sou o teu barco que por si navega,
sou tudo menos uma espera,
sou o que existe a quem se entrega.
Assim percebes agora,
não sou a tua margem,
esse bilhete é noutra paragem,
ouve,
se for eu uma passagem,
esquece o preço desta viagem
e percebe a mensagem.
Mas se de súbito te parecer me quereres,
és vasto e louco,
pois acredito já pouco,
duvidaste, hesitaste, mesmo paraste,
e no vento abanaste a minha barca abalada,
queres-me à margem,
e o meu coração do lodo desse rio partiu,
nesse dia, nessa hora à procura de outra aurora.
Se me eras destinado,
não fiques baralhado,
vais aqui,
navegado a fogo içado,
em mim nada se assola ou se larga,
o meu amor é amado,
marinado, nestas águas velejado,
não são turvas, nem translúcidas,
é um mar a ser estimado.

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

há mau...


há minutos marcantes, como corrompidos,

há horas alegres, como estragadas,
há dias intensos, como angustiados,
há meses satisfeitos, como deturpados,
há anos inteiros, como desgastados,
há lágrimas de alegria, como de tristeza,
há beijos amados, como arrancados,
há abraços envolventes, como despedidos,
há sentimentos grandiosos, como dolorosos,
há palavras apetecidas, como enganadas,
há quereres conquistados, como dissimulados,
há estado de sucesso, como de falido,
há amores prometidos, como envenenados,
há bons devaneios, como ânsias disfarçadas,
há momentos de glória, como mágoas em voltar
há,
sou um há!
e quero tanto acordar, desta noite de finados.