Se for eu uma passagem, quero que saibas umas coisas, tantas de quem já sabe;
se o meu
brilho ofusca na maior noite de luar,
se o meu
jeito reguila enche um dia de neblina,
ou mesmo
um só meu olhar,
minha pose
ou forma de estar,
embebeda
quem nem se ousa a encarar,
sem toque,
nem afronte, sem confronto minimal,
então eu sou,
sou a tua bola
de cristal,
onde vês
um mar fresco no verão,
um abraço
de outono,
suave
vento a acalmar,
um inverno
frio amornado,
ou a
primavera a mão dada, suja e salpicada,
sou quem
te refresca, te aquece, te pinta na paisagem,
sou o teu lume, a água, o vento sem lamento, a terra com raiz,
sou o teu lume, a água, o vento sem lamento, a terra com raiz,
sou a tua
mulher inteira,
sem
esquema ou gadelha,
imparável,
acreditada,
impagável,
amada,
impalpável,
sonhada.
Sou tudo o
que renegas,
e tudo o
que te leva a ti,
sou o teu
barco que por si navega,
sou tudo
menos uma espera,
sou o que
existe a quem se entrega.
Assim
percebes agora,
não sou a
tua margem,
esse
bilhete é noutra paragem,
ouve,
se for eu
uma passagem,
esquece o
preço desta viagem
e percebe a mensagem.
e percebe a mensagem.
Mas se de
súbito te parecer me quereres,
és vasto e
louco,
pois acredito
já pouco,
duvidaste,
hesitaste, mesmo paraste,
e no vento
abanaste a minha barca abalada,
queres-me à margem,
e o meu coração do lodo desse rio partiu,
queres-me à margem,
e o meu coração do lodo desse rio partiu,
nesse dia,
nessa hora à procura de outra aurora.
Se me eras
destinado,
não fiques
baralhado,
vais aqui,
navegado a
fogo içado,
em mim nada se assola ou se larga,
o meu amor é amado,
em mim nada se assola ou se larga,
o meu amor é amado,
marinado, nestas
águas velejado,
não são
turvas, nem translúcidas,
é um mar a ser estimado.





















