Este pêlo branco

Aqui, nesta montanha batem os primeiros matinais raios de sol e quando este desce e se apresenta o luar tem-se a sensação de que nada se apresentou diferente do que já foi, do que é ou que poderá vir a ser. Não espere nada, nem deslumbramento nem desilusão, não é essa a brancura que se pretende.
Anseie o nulo para que atinja o supremo início do tudo de novo.
Muito gosto,
Cabra Branca.

terça-feira, 19 de julho de 2011

Ao Bairro

A frase dançava-lhe na cabeça, a gargalhada não é um sentimento, gargalha aparente, provida ou não de razão, por algum agrado ou enfadonho sentimento, ouvira alguém dizer, a gargalhada não é um sentimento...
E o telefone tremelicou, mensageiro de notícias saudosas: “- Vem jantar! 20 horas em ponto, sem direito a recusa!”. Sem direito a recusa, uma convicta ordem de amizade com mais de dúzia de anos.
À hora marcada Renata tocava-lhe à porta, e sem grande demora já à mesa se apresentava o repasto, o de sempre, ostentado em ilustre wook carregado de massas finas e tricolores legumes, um já clássico de sucesso naquela mesa de amigo. Sentiam-se tão bem acompanhados, preenchidos por tão boas conversas. O tempo era veloz passava entre o dueto de voz.
Subiram ao Bairro Alto, aquecidos pelo Gatão rosé, o destino, o de sempre, fazia já parte da noite pararem no bar dos melhores mojitos. O Bairro? no contexto de sempre, as mesmas ruas húmidas, os mesmos cheiros e barulhos, os mesmos olhares e os mesmos engates de sempre. O Bairro, uma novela, não tão previsível. O Bairro, ali está, ao fio da meada, onde a gargalhada não é sentimento, não é indiferente, é sim acontecimento.

segunda-feira, 28 de março de 2011

Pólen

Partiríamos num paquete. Partiste. Acenaríamos aopadrão e à torre. Não te acenei... Eu içaria as âncoras. Lágrimas larguei. Tu servirias os cafés. Já os não sei servir... E à noite lavaria os teus pés. Como na noite que sonhaste partir? De manhã faria flores. Na clara, sombria fiquei... Sabes que aprendi a fazer flores só para me sorrires? Guardaste-la? Sorri-te, sim, sorri-te esquecendo-me de mim. Não disse que era para ti? Era para ti. Sim, o café é para mim! Sim, para ti... Ainda não sabes que é para mim? Ainda sei quem és. E a flor que deixaram cair era para ti… A pétala de outrora flor...

quarta-feira, 9 de março de 2011

Sabes a café

Peço que me tires um café. Se tivesses pedido com sentido... Todas as noites peço que me tires um café. Não numa noite certa, certamente... Há um mês que peço que me tires um café. Um mês é tanto de tão pouco para mim... Fiquei a semana inteira ansiosa pelo momento em que peço que me tires um café. Ânsia sinto agora sabendo quando não o soubeste fazer... Continuo ansiosa, agora, para que voltes ao café. Não voltarei... Como posso pedir outro café! Já não há... Já não quero café. Não te saberia ao mesmo... café.

Pleura

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Geni e o Zepelim

De tudo que é nego torto
Do mangue e do cais do porto
Ela já foi namorada.
O seu corpo é dos errantes,
Dos cegos, dos retirantes;
É de quem não tem mais nada.
Dá-se assim desde menina
Na garagem, na cantina,
Atrás do tanque, no mato.
É a rainha dos detentos,
Das loucas, dos lazarentos,
Dos moleques do internato.
E também vai amiúde
Co'os os velhinhos sem saúde
E as viúvas sem porvir.
Ela é um poço de bondade
E é por isso que a cidade
Vive sempre a repetir:
"Joga pedra na Geni!
Joga pedra na Geni!
Ela é feita pra apanhar!
Ela é boa de cuspir!
Ela dá pra qualquer um!
Maldita Geni!"
Um dia surgiu, brilhante
Entre as nuvens, flutuante,
Um enorme zepelim.
Pairou sobre os edifícios,
Abriu dois mil orifícios
Com dois mil canhões assim.
A cidade apavorada
Se quedou paralisada
Pronta pra virar geléia,
Mas do zepelim gigante
Desceu o seu comandante
Dizendo: "Mudei de idéia!
Quando vi nesta cidade
Tanto horror e iniqüidade,
Resolvi tudo explodir,
Mas posso evitar o drama
Se aquela formosa dama
Esta noite me servir".
Essa dama era Geni!
Mas não pode ser Geni!
Ela é feita pra apanhar;
Ela é boa de cuspir;
Ela dá pra qualquer um;
Maldita Geni!
Mas de fato, logo ela,
Tão coitada e tão singela
Cativara o forasteiro.
O guerreiro tão vistoso,
Tão temido e poderoso
Era dela, prisioneiro.
Acontece que a donzela
(E isso era segredo dela),
Também tinha seus caprichos
E ao deitar com homem tão nobre,
Tão cheirando a brilho e a cobre,
Preferia amar com os bichos.
Ao ouvir tal heresia
A cidade em romaria
Foi beijar a sua mão:
O prefeito de joelhos,
O bispo de olhos vermelhos
E o banqueiro com um milhão.
Vai com ele, vai Geni!
Vai com ele, vai Geni!
Você pode nos salvar!
Você vai nos redimir!
Você dá pra qualquer um!
Bendita Geni!
Foram tantos os pedidos,
Tão sinceros, tão sentidos,
Que ela dominou seu asco.
Nessa noite lancinante
Entregou-se a tal amante
Como quem dá-se ao carrasco.
Ele fez tanta sujeira,
Lambuzou-se a noite inteira
Até ficar saciado
E nem bem amanhecia
Partiu numa nuvem fria
Com seu zepelim prateado.
Num suspiro aliviado
Ela se virou de lado
E tentou até sorrir,
Mas logo raiou o dia
E a cidade em cantoria
Não deixou ela dormir:
"Joga pedra na Geni!
Joga bosta na Geni!
Ela é feita pra apanhar!
Ela é boa de cuspir!
Ela dá pra qualquer um!
Maldita Geni!


Vindo de : O Mal Educado
Obrigada.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

estranha

Virou-lhe as costas, depois de fechar a falsa pouchet louis vuitton. Nada mais ali se servia. Ao fim de dúzia de passos, Lia percebera que ele não viera atrás e então sentiu liberdade a inspirar forte, encheu os pulmões de ar tranquilo e soltou-o com maior licença.

Uma noite finda, uma igual a tantas outras, tantas foram que Lia perdera a noção. Naquele corpo navegaram mais tripulantes que os de Oasis of the Seas. Ela, indiferente, qualquer água turva servia, seria boa, pura e límpida para se lavar e esquecer o que em poucas horas se transformaria. Lia virou costas, encarou o dia. Alivio certo agora, a sua pouchete abria e dentro dela via, o maço de notas que ainda quente reluzia, a calma surgia.


sábado, 19 de fevereiro de 2011

O amor não admite ilusões

Juliana içava padrão de mulher perfeita, agradável personalidade, bela forma de estar na vida. Aparentava vivacidade e alegria, ofertava sorrisos e bem estar, segurança no saber, quereres carregados de certezas infindáveis, enfim, contagiante Juliana, era uma mulher quase perfeita.
Quase perfeita não fosse coabitar nela uma imensidão de incertezas e inseguranças, sobressaltos e agonias travadas, lutas solitárias em desencantos travados, monologas palestras, enfim, contagiante Juliana, quase perfeita, doce Juliana.

Foto de Policarpo

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

A MiguelB e Sam Seaborn

Dedico esta música a dois dos comentadores mais antigos deste blogue
obrigada,

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Descalça

Acordou com a boca seca e a garganta a doer, muitas horas a dormir de boca aberta. Despertou no silêncio, com a fraca luminosidade e os olhos remelentos mal conseguia vislumbrar qualquer conteúdo, a ausência de sons ajudaram a não se despregar da cama, sem preocupações voltou a cair no sono.
A porta da rua batera como empurrada pelo vento e os passos em corrida pelo que parecia um longo corredor acordou-a. Sentiu alguém perto do seu quarto a abrir lentamente a porta, ao fundo duas vozes falavam, riam animadas no que parecia, pelo eco, uma grande cozinha. O barulho dos sacos de plástico, a porta do frigorifico que abrir e fechar e abria e fechava em igual ritmo a uma cauda que abanava num porte médio de cão,
- mãe, mãe.... mãe acorda...
O suave timbre e o doce carinho daquela voz em nada lhe era familiar. Célia abriu os olhos devagar, meio a medo visava uma menina tão branca quanto os lençóis, olhos verdes espelhados e cabelos escuros, muito finos,
- mãe! Sorriu a menina, que pegou na mão daquela mulher ainda narcotizada, anda mãe, anda ver, compramos muitas coisas para a tua festa de anos, o pai até comprou champanhe para mim, champanhe de criança, claro. Célia deixou-se conduzir por aquela mini-gralha, por aquela que lhe chamava mãe uma criatura com não mais de 4 primaveras.
Chegou à cozinha arrastada e tonta, os pés descalços abandonaram o piso de madeira e sentiram o frio da pedra preta do chão da cozinha, gelou, reconheceu Camila, a sua filha, aqueles olhos grandes e sorriso peculiar era impensável não reconhecer, mas Camila parecera-lhe bem mais velha. Largou a mão da petiz e correu para junto de Camila.
- Camila que se passa aqui? Quem é esta gente? Célia com cara e voz aterrorizada.
- Como assim mãe?
- Quem são estes, onde estamos?
A pequena correu para o colo do pai, o cão soltou um guincho e enfiou-se debaixo da grande mesa como se protegendo de uma assombração.
- Mãe? Atreveu-se sussurrando em voz ainda mais doce a pequena Sofia.
- Xiuuu disse o pai no ouvido da pequena.
- Mãe?! Estranhou Camila, só podes estar a brincar, o Jorge o teu marido a Sofia vossa filha, o nosso cão Bernardo e estamos em nossa casa!!!!
O silêncio e a expectativa não deixou muito tempo para Célia pensar... - ahahahaha família, pois a minha família! Verbalizou Célia em tom irónico, com sorriso amarelo e num gesto improvisado sacou uma pêra da fruteira que ornamentava a mesa, deu uma dentada na suculenta pêra e questionou. - Já agora quantos anos completo hoje?
- 44 mãe!
Célia deixou cair a pêra que Bernardo prontificou-se a concluir, correu pelo longo corredor enfiando-se no quarto, abriu a porta do roupeiro e tentou reconhecer-se ao espelho... Acordou com a boca seca e a garganta a doer, muitas horas a dormir de boca aberta. Despertou com o barulho dos autocarros e táxis da cidade, com a fraca luminosidade e os olhos remelentos mal conseguia vislumbrar qualquer conteúdo, mas a presença da vontade ajudaram a perceber que sem preocupações voltaria a ter uma família.

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Despenteado

Um ritual milimétrico o pente passava pelos finos cabelos, pelas brilhantes sobrancelhas e ainda em retoque de mestre entre o bigode e a mosca que sublinhava o contorno dos lábios. Nenhum fio poderia estar desordenado. Um suave aroma a fresca alfazema vinda da roupa sabiamente engomada e vincada por mãos afectuosas. O guarda-chuva enlaçado no braço, preparava-se para sair sem antes cair em esquecimento a última mirada no espelho do antigo móvel do hall. Ali reflectia-se um homem alto, convicto, preparado para as tramas do dia. Assim bem penteado, engomado e perfumado, firmou-se na saída.

Ao abandonar o lar uma dúvida surgira-lhe, uma desconfortável incerteza, talvez uma falha de execução na sistemática preparação matinal. Atrasou a abertura da porta e recuou para um novo espreitar. A sua aparência parecia-lhe bem, no reflexo tudo confinava ao rigor. Ficou para trás a dúvida de tal ânsia e perseguiu ao que se propunha, abriu a porta sem hesitação e fechou-a com maior certeza. Desceu as escadas do seu primeiro andar e encontrou os raios de sol a brilharem no chão mármore do patamar, sorriu na segurança do encontro de um dia lindo, um dia digno de se amar. Alegrou-se, na certeza de encontrar o sublime, um solarengo sossego. Abriu a grande porta do prédio, seguro no luminoso dia, maravilhado e convicto.

Sem misericórdia, a um servo rigoroso, o vento despiu-o ali com pressa e sem perdão, não deu espaço sequer a uma retorção, um aterrador e maléfico sopro, um impiedoso vendaval o despreparou e desesperou, despenteou e desordenou e aquela agora imperfeita figura, lutou a dois braços para fechar a majestosa porta. Fechou-a. O ritmo cardíaco acelerado e o som do vento ainda arfava a seu ouvido... annhhhh, annhhh, anhhhhh ....amooorrrrrr, dá-me, dá-me annhhhh, sim, sim, dá-me...o coração tranquilizou, afinal era a Susana Tornado, ainda em lençóis com ela quente entre braços.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Desenhar letras

Depois de mais uma pausa ...em "desenho" próximas letras.
Está no forno, embora a lenha ainda húmida, vão chegar novos post´s
Beijo-vos.
CabraBranca

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Don´t SPEAK

Meus Doces Leitores, aqui a cabra está cheia de trabalho até ao pico desta montanha, mas volto, até lá deixo-vos com o "meu silêncio" Beijo-vos.

domingo, 12 de dezembro de 2010

O filme de Estela

Mas como?! Tu não viste o mesmo que eu?

Vi estrelinha, vi… mas…

Então como não decifras tal como eu?

Não sei estrelinha, não sei… mas…

Como não sabes?! Hellooooooo vivemos no mesmo planetaaaaa, certooooo?

Sim estrelinha, vivemos sim… mas…

Mas? mas que MAS MANEL?!

Mas estrelinha, mas eu sou...

Tanso!!!! E enfia-me a estrelinha no... BOLSO MANEL, NO BOLSO!!!

Estela abandona o corredor do cinema espavorida. E uma nova estrela brilha ao fundo do túnel .

sábado, 11 de dezembro de 2010

Hummmm

Peço desculpa, mas aqui me surge uma questão, será que alguém pode auxiliar esta mente em dúvida?????... HUMMMMMM porque será que os meus últimos seguidores são cus???? Não tenho nada contra, aliás tudo a favor, mas acho curioso... hummmmm :-)

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

“Batalhas findadas que tão nobre cavaleiro lutou. Tão longa cruzada penou, ansiando por o que suave e terno anoitecer alcançou. Sua dor apaziguou, o encanto chegou...”

Almofada

Roçava o rosto suavemente, cerrava com força os olhos sentindo-a, rodava o rosto enfiava o nariz cheirando-a, a ela, a pele dela. Foi no sonho que a encontrou. Um sonho de sonho, uma janela de amor. E não havia mais nada, ele a almofada. Elevou um pouco o rosto abraçou-a e suave a beijou.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

...F(ó)nix

......e

O amanhecer em nada era diferente dos anteriores. O sol acordava os pássaros nas árvores da cidade, cantavam em bando e agitavam as asas secando o orvalho da noite. Mais dois raios e o grande pássaro poisava no beiral da janela, bebericando as gotas de água esculpidas no vidro, umas pareciam-se a minúsculas ventosas, outras enchiam-se mais que a medida, transbordavam e escorregavam desenhando finos rios a desaguarem no beiral. E ele ali ficava, parado, o grande e gordo pássaro, com as suas patas encharcadas nas poças do beirado, os olhos berlindes negros, colados, mirantes sem melindre em sua Eva.

Como era suave o seu dormir, contemplava-a o grande pássaro, tão simples, doce e meiga, tão ténue e adorada. Viajava ali, sem dar a asas, imaginando o seu corpo roliço transpondo-se, infiltrando-se lá para dentro, para aquele quarto quente e odorante. E continuava picando suavemente o translúcido vidro, como quem mata a sede em gotículas abandonadas, esperançado mesmo que breve no acordar de sua amada.

E a donzela virou-se, o grande pássaro assustou-se, quase se baldou, mas somente cambaleou e logo se recompôs... que bela perna aquela que se destapou, amou, vagueou no deslize de sua asa por torneada perna ...quase desmaiou, mas se aguentou e a sua angelical não acordou, nem se levantou. O imenso pássaro suspirou, ainda assim animado deu às asas e dali voou. Consigo esvoaçou o que o encantou.

Outro amanhecer chegou, nada mudou, o sol acordou e ele poisou, esperou no beiral que sempre enamorou, parado no que nunca lhe escapou, o que desta mais uma vez se destapou.



sábado, 27 de novembro de 2010

Saqueado

Ai Jesus, perdoa-me senhor, ontem saí em assalto.

Minha filha que despojaste?

Ai por Deus nem sei como contar, foi rápido, muito rápido, nem sei bem como aconteceu..

Mas minha filha mataste?

Talvez Senhor, talvez...

Sabes que estás aqui para confessar...

Não sei bem se confesso se contesto Senhor

...?

Não senti sirenes abalroarem...

Mas minha filha que saqueaste?

...Um beijo senhor

Um beijo no assalto?...

Não Senhor, um beijo de assalto!

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

A retalho

Saía Osvaldo pela fresca, de mala apta seguia. O seu mercado dava-se de porta em porta entre suas promissoras Donas, eram nos pequenos almoços madrugadores, lancheiras e carícias maternais mais todos os compromissos matrimoniais, as super Donas da casa. Acabavam seus rituais matinais, despachando crias, enjeitando gravatas, desprendendo-se de seu posto.

A porta batia, a calma chegaria e os sorrisos abandonariam. Elas, elas ficavam ali, as Donas, para todas as outras correrias.

Osvaldo sabia, qual a hora certa seria. Bem apresentado batia à porta da Dona que se seguia. Sempre era bem recebido, bolinhos confeccionados, pouco açucarados em tabuleiros bordados. Entre chás ou cafés iniciava prezada confabulação fazendo agitar o coração. Vendia a retalho assuntos misteriosos, pequenos a grandes regalos. Era detalhado, explicito, assertivo Osvaldo, à altura de recônditas carências.

E como saberia que tamanho ideal? E com cores seria banal? Como vendedor sempre respondia, não sorria, respeitoso e digno Osvaldo, venda directa fazia!

A noite caia, às Damas apetecia, aos cavalheiros surpreendia, davam vazão à fantasia, davam razão a quem vendia.

domingo, 21 de novembro de 2010

Gelatina

Do lado de fora do refeitório, através da janela revestida a gotículas de chuva, contemplava-o, estava empenhado, romântico e feliz, dava colheres compassadas de sobremesa a ela. Não conseguia deixar de olhar, para ele e para ela. O frio aumentou-lhe o aperto no coração e apesar do agasalhado e das mãos enfiadas nos bolsos, esfriou, sentiu o corpo a tremer feito um caniço desamparado. E não conseguia deixar de olhar. Ontem não tinha sido assim, o passo entre o ser e estar dera-se à velocidade da luz, ontem estava ele ali, naquele mesmo lugar.

Era mais forte que ele, não desistia de olhar. Pelo vidro fixou-se nos lábios púrpura dela, que ampliaram-se na obsessão, eram grossos e sorridentes a lamberem os restes que lhe iam ficando perdidos a cada colherada de gelatina, lábios carnudos que o começaram a enjoar. Os nervos subiram de rompante, mal tivera tempo de deslocar o rosto despegando-o do envidraçado para vomitar a gelatina que tinha comido sozinho na fila do lado. O seu lugar de sempre estava agora ocupado. O seu lugar tinha sido tomado...

Envenenado pelo vómito limpou os lábios à manga, os olhos encharcados pela chuva fizeram-no entrar cego pelo refeitório, o gosto a azedo na boca acelerou-lhe o passo, como quem traga num sedento ódio. Só parou quando naquela boca gorda se misturou com a gelatina de amoras o sangue dela, daquela ladra que lhe roubava ali colheradas de seu amor por ele, o amor silenciado e desconhecedor do ele.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Segredo de Cris...tal

Passava entre o burburinho estudantil, ao primeiro olhar era uma mulher banal, às quintas-feiras numa periodicidade quinzenal, apresentava-se na sala, entrava ligeira, enrolada no seu casaco preto de fazenda grossa que roçava delicadamente o soalho, consequência da sua pequenez figura. Ninguém dava por ela. Seu olhar colado ao chão transformava seus cristalinos em pregos a juntarem-se aos já existentes nas tábuas corridas. Subia a banqueta estofada a napa pronta a esgaçar e sentava-se delicadamente no estirador de madeira maciça. Olhos descaídos e pestanejantes. Movimentava levemente os braços e o casaco pesado escorria-lhe suavemente pelos ombros.

O silêncio reinava em menos tempo do que o calculado e a luz do corpo de Cristina iluminava a sala ao entardecer daqueles dias de inverno.
Tez alva, imaculadamente clara.

Sem estudar a pose, inclinava-se devagar, a primeira posição sempre dormida, aninhada no seu corpo roliço ...e seus olhos cerravam até ao comando do professor,
- Muda!

Escutavam-se somente os velozes riscadores e os dedos dançantes a fundir tons sombra no papel, acentuando o volume das coxas em esboço... E percebia-se a pausada respiração de Cristina.

Mas a cada movimentação orientada pelo mestre, Cristina acelerava a transpiração, enchendo não só os olhos dos discípulos mas também os olfactos, brindados a canela polvilhada. Os ensaios nas folhas imensas, transformavam-se em linhas com vida carregadas de anseios húmidos. Cristina fazia transparecer as vontades mais lascivas de quem a emoldurava. Ela que em posições pudicamente se colocara, sem referencia assexa, via a cada semana findada posições pintadas a desejo, os resumos em obras concluídas, por muitas modelos altas e magra cobiçadas.
Afinal copulava em Cristina a transparência do cristal.

Foto; Luís Mendonça

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Super-pij.AMA man

... amiga tu nem calculas, um jantar gourmet, ambiente acolhedor e muito tentador, um excelente vinho tinto a convidar beber mais a cada gole dado, boa conversa acompanhada a música clássica de fundo ...céus, maravilhoso! Fomos para o hotel em brasa, uma arquitectura simples mas uma verdadeira pérola no meio da paisagem, o quarto uma perdição, charme, requinte e de muito bom gosto. Agora, amiga... eu, nua, deleitada sobre aquela nuvem branca a que chamam de cama délice... e o gajo sai-me do quarto de banho e apresentasse-me de PIJAMA!!!!???

- Que medo!

- Sabes aqueles pijamas que as avós oferecem entusiasticamente aos seus queridos netos em todas as noites de véspera de natal?

- Sei! Os que vêm dentro de uma caixinha com imagem de um patego de cabelos colados e risco ao lado, aperaltadíssimo dentro do seu maravilhoso e confortável pijama?

- Sim amiga, a morte amiga, a morte...

- E que fizeste?

- Acreditas que fugi!?

- Fugiste? Como assim? O gajo despiu-se e tinha uma verga gigante por baixo da calcinha de pijama?

- Não, nada disso, fui embora sem sequer me dar ao trabalho na explicação, horrendo! ...que falta de... ai sei lá, não quis ver mais miséria amiga. Estou frustrada, isso sim, é que este mês já é o segundo filme igual.

- Mas linda, vamos lá saber, vais para foder e ser bem fodida ou para assistir a uma passagem de modelos?

- ...

terça-feira, 16 de novembro de 2010

...........12

Suavemente, sem inquietude este Blogue perfez um ano.
Em berço, julguei-o bem, hoje de olhos postos nos meses passados diviso o embuste do que julgava vir a encontrar. Um ano, o que é um ano? Um ano escrito a não reconheço, a tinta incógnita de desconhecidos, merecedores talvez de mais do que foram vagas linhas de quem não sabe desacreditar.
Aqui tem tanto, aqui é tanto, tudo do nada que escrevi, mais um meu tudo, um meu nada. Influente do que falta, nascente do menos importante rio mas afluente das mais elevadas ligações, o olhar. Falta o OLHAR.
muitas das vezes são as nossas esperanças e não os nossos ódios que nos destroem e nos dividem.
Ainda assim sei te ver, a ti que me lês, que me comentas, que em mim crês. Sei te ver, ...mas falta, ainda assim falta o CONTEMPLAR.
Parabéns.

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Menina da Era, já era...

Então diga-me, fale, conte-me de si, para que possa saber que tipo de casa lhe aconselhar. Camila intensamente interessada.

Luís gelou, aquele calor humano era-lhe longínquo sentimento, senti-o de relevo, relembro-o no olhar profundo de Camila, um contemplar que não lhe era original, era igual ao doce e empenhado olhar de Bia, aquando lhe desinfectava as feridas nos joelhos a água oxigenada. - Avó isso arde, avó?- Não meu Luís não arde quando é feito com amor... com amor não há ardor meu pequeno Luís. E Luís gelou, cerrou os olhos ao saber da água que lhe iria cair na ferida fresca. Sorriu de alivio e viu nascer uma pequena nuvem rosa. Não doeu avó, não doeu!

Luís permanecera de olhos cerrados.

Sr. Luís?

Abriu os olhos devagar, o volume dos seios de Camila ampliaram pela proximidade, o aroma a romã... Luís num sereno balbucio... não dói, não dói nada...

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

SeloS


Este blogue anda uma trampa! Ou a mentora dele… Ainda assim fui brindada, com dois maravilhosos selos, triste achar que nem sei “sê-lo” condigna. No entanto e apesar de tardar na resposta de agradecimento, quero oferecer não um selo mas sim um sorriso aberto de esperança de coisas nem pequenas ou grandes, mas sim reconfortantes. Com todo carinho deixo uma música para o Meu Lado B e à minha D.PutaSim.
Obrigada.
Cabra Branca

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Aqui é


Esse é o lugar.
Este onde estou, ou onde fui... lá é ténue, um outro jardim, onde as sementes são de cores diferentes, onde se quer nasce sem perceber a linha de atalho para o foi.
Fui lá e lá vi a árvore, diferente de árvore que sempre conheci. Alguém se esquecera dela por lá. Nesse lugar havia uma árvore, sem dor, sem cor. Quis subir-lhe ao topo, esperei pelo o vento mas nem uma rajada ajudou, a árvore sem ramos, sem cheiro a terra não deixou, não deixou... e por ela o meu tempo não trepou.
Este é o lugar.
Aqui é o lugar.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

20ª Consulta


Os EX-incluídos

Cara amiga Cabra,

Aqui vai o meu... nem sei como apelidar, não posso chamar inveja, porque não é isso. Como definir o desejo por só o que já não me pertence?

Divorciei-me para usufruir das melhores noites de sexo com o depois já meu ex-marido. E assim me recordo te ter enveredado por este desejo do após. Alinhando em sucessivos namoros expirados ao fim de um, dois meses para almejar noites escaldantes nas mais intensas delicias sexuais com os ex´s. Pode parecer estúpido ou mesmo sem lógica, mas é um real dilema que não consigo dispensar nem perceber a causa/origem.

Anseio que aceite este meu mail e opine desse seu jeito de Cabra afoita e sabida.

Diva

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Cara Diva, a minha opinião pode ser breve ou provavelmente obtusa! Que tal começar pelo fim? Isto se realmente quer soldar alguma relação, coisa que ficou imperceptível no seu mail. Quando digo, fim, refiro-me a intitular o seu novo parceiro sexual de ex qualquer coisa, se desta forma achar que alcança um melhorado empenho sexual. Crie uma personagem, imagine-o como o seu ex-dentista; ex-jardineiro; ex-colega ou de um ex-amante, isso, o seu actual ex-amante!

Talvez me diga que o problema é que não tem tesão pela novidade, mas sim pelo já conhecido e consumado. Aí julgo que a questão centra-se no seu à-vontade, depois já sem compromisso de esposa ou namorada, onde o seu papel já não tem de ser definido de “bem comportada”, e se dê na entrega da loucura, se solte dando largas a devaneios escondidos na carapaça de mulher modelo, ainda estereotipada pelo pensamento de alguns homens. Mas será que sim? Será que eles ainda querem o perfil de mulher certinha?

Querida Diva já a minha avó dizia, que uma mulher quer-se uma senhora na rua, e uma senhora puta na cama! Pense nisto, desta forma julgo que conseguirá alcançar melhores resultados no seu interesse sexual, tanto para si como para o seu companheiro, tornando a relação mais sólida e duradoura!

Escaldantes enlaces

Atenciosamente, Cabra.